O ronco da cuíca com o gostinho de quero mais!

O Carnaval passou mas ainda deixa no ar o “gostinho” de quero mais. Apesar de bons resultados previstos para algumas escolas e surpreendentes negativos para outras. O show foi sensacional.

Em São Paulo a vitória da Escola de Samba Mancha Verde já vinha sendo desenhada desde as suas passagens nos ensaios técnicos. Sem problemas com a falta de dinheiro e um patrocínio “gordo” para apresentar o enredo “Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra”, proposto pelo carnavalesco Jorge Freitas, a Mancha Verde fez um grande Carnaval. Durante a apuração disputou palmo a palmo a ponta com Acadêmicos do Tatuapé, até que no quesito alegoria a Mancha virou o jogo e conquistou seu primeiro título de campeã do Grupo Especial. Para os desfiles das campeãs seguidas pelas escolas Dragões da Real, Rosas de Ouro, Unidos de Vila Maria e Império da Casa Verde.

Porém, a grande surpresa foi a queda da Escola de Samba Vai Vai para o Grupo de Acesso. A escola que chegou a fazer um bom desfile no sábado de Carnaval, errou em alguns quesitos na visão dos jurados. Principalmente a comissão de frente que não alcançou nenhuma nota 10, dos 40 pontos disputados no quesito. Alegorias foi outro quesito que ajudou a empurrar a Vai Vai para baixo. O surpreendente resultado deixa atônito os sambistas e a imensa torcida da escola do Bixiga, que é a maior detentora de títulos do Carnaval Paulistano.

Entretanto, ao apresentar o enredo “Quilombo do Futuro” proposto pelos carnavalescos Roberto Monteiros e Hernane Siqueira, a comunidade da Saracura deixou transparecer os seus problemas internos. Ou seja, o “racha” no conselho administrativo e divisão da comunidade. A disputa pela direção, as desavenças entre integrantes e a desunião foram fatores cruciais para sua queda. O descenso que já tinha sido anunciado desde o Carnaval de 2018, quando a escola ficou na antepenúltima colocação. E os primeiros desentendimentos começaram a despontar. A Acadêmicos do Tucuruvi também caiu para o acesso.

No Acesso 1, as boas apresentações das Escolas de Samba Pérola Negra e Barroca Zona Sul levaram as duas para o Grupo Especial de 2020. No entanto, a outra surpresa foi a queda da Unidos do Peruche. No nosso entender até então, a Peruche fez um bom desfile. Porém, a sua queda esbarrou em erros básicos como de fantasias e alegorias. Lamentável! Pois é mais uma escola de samba de raíz que passa a vagar pelos caminhos do acesso. Em seu lugar sobe a Estrela do Terceiro Milênio.

Todavia, o que causa espanto e indignação aos sambistas de verdade é como tantas escolas de samba matrizes do carnaval , possuidoras de um grande legado Cultural, e de redutos de bambas que lutaram muito para que os desfiles das comunidades fizessem parte de um patrimônio histórico, agora vagam pelos caminhos do acesso 1 e 2.

É difícil aceitar que pavilhões como do Vai Vai, Camisa Verde e Branco, Nenê de Vila Matilde, Leandro de Itaquera, Unidos do Peruche e outras que tanto fizeram para o Samba, agora figuram nas páginas intermediárias da história atual do Carnaval.

Num outro cenário do Carnaval a resposta para essa indignação foi perfeita. “O Samba vai perdendo a tradição! Que saudades…”, diz o refrão do samba enredo “E o Samba Sambou…” da São Clemente. A escola carioca fez uma crítica saudável para mostrar o que virou o Carnaval, reeditou o enredo apresentado no desfile de 1990, onde o samba lamenta a transformação dos antigos desfiles em megaespectáculos, valorizando artistas de TV e deixando de lado personagens da comunidade que deram sua vida pelas escolas e que hoje, muitos deles são peças descartáveis e nem participam dos desfiles.

Só Alegria!

Já no Rio de Janeiro, a união e superação diante dos problemas financeiros entre outros, a Mangueira mostrou porque é a Primeira Estação do Samba e ser a grande campeã do Carnaval carioca. “História para Ninar Gente Grande”, o enredo proposto pelo carnavalesco Leandro Vieira levou o público ao delírio ao trazer o lado não oficial de personagens da História do Brasil e mostrou uma nova versão de acontecimentos históricos, como o descobrimento, a independência e a abolição.

O desfile da Mangueira foi sensacional e emocionante. Um título muito merecido e de superar todos os problemas que a Verde e Rosa teve antes do Carnaval. Entretanto, a disputa por esse título não foi nada fácil para os mangueirenses. A competição esteve bem acirrada com os grandes desfiles da Viradouro, Vila Isabel, Portela, Salgueiro e Padre Miguel.

Porém, o que chama atenção nos dois cenários do Carnaval (São Paulo e Rio de Janeiro) é a diferença no quesito “Evolução”. Em São Paulo não sei se conceito foi mudado, porque a escola que sambou no pé e evoluiu dançando foi justamente a que desceu para o Grupo de Acesso, a Vai Vai mostrou muito mais entusiasmo que a maioria das outras que preferiram desfilar em fila indiana e evoluir batendo palmas.

Diferente do Rio de Janeiro onde os componentes das escolas de samba carioca desfilam evoluindo o samba no pé e dançando para mostrar alegria e uma coreografia perfeita.

Valdir Sena – Jornalista, radialista, pesquisador e cronista de Carnaval.

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