Paixão pelo futebol de várzea forma cidadãos

Quando a dificuldade pediu mudanças surgiu um grande orgulho futebolístico da várzea, o Botafogo de Guaianases. Nascido, criado e eternizado em bairro da Zona Leste de São Paulo, o clube joga um ‘bolão’, ao colaborar na formação dos jovens na região.

Diante dos obstáculos para sobreviver numa nova cidade, a família de Admardo Armond, torcedor fanático do Fluminense deixou o Rio de Janeiro em 1955 e aportou no bairro de Guaianases. Apaixonado por futebol, fez do campo batido de terra, um reduto para aquele jogo de final de semana e do churrasco entre os amigos. Uma paixão que orgulha todo o bairro de Guaianases, e hoje, é uma das grandes conquistas no desenvolvimento cultural e esportivo da Zona Leste da Capital.

Logo, os encontros entre amigos ficaram sérios e no primeiro jogo oficial do novo clube da várzea paulista, que deveria receber o nome do Fluminense, o inesperado veio a acontecer. Chegando no vestiário com minutos antes do jogo, toda a família e jogadores foram surpreendidos pelo erro na confecção das cores do fardamento do time. Como não havia mais tempo e dinheiro para trocar o uniforme, eles se reuniram rapidamente e decidiram que o tricolor de Guaianases ficaria com o preto e branco no uniforme e para diferenciar do clube carioca ganhou o nome de Grêmio Botafogo Futebol Clube.

Consolidando a cultura do bairro, com o senso de família e amigos, o futebol varzeano do Botafogo de Guaianases ganhou nome e prestígio pela Capital, e até hoje, é respeitado e admirado aonde quer que chegue para disputar um amistoso, um jogo entre veteranos e novatos, dentre os mais diversos campeonatos de várzea que ganham espaço pela Capital. O time do ‘fundão’ da Zona Leste, atualmente conta com uma estrutura de quase 240 metros quadrados na sede social do clube na Rua Professor Alexandre Monat, 166. Lá, jovens craques participam dos treinamentos de segunda à sexta entre às 08h às 17h, com o compromisso de levar com seriedade a rotina escolar e tirar boas notas.

Foto Josy Dinorah
SÃO PAULO, SP – Foto: Josy Dinorah

O projeto com os jovens da região conta com a supervisão do morador Itamar de Jesus, conhecido como “Presidente” pelos torcedores e jogadores do time. Ele mesmo com o pouco tempo que tem, divide sua semana e finais de semana entre o ganho de sustento da família na loja de baterias do bairro e a dedicação e o amor que leva desde menino pelo time.

Ele conta que sempre foi muito empenhado em ajudar quem mora na região. Com 13 anos reprovou por três vezes a antiga sexta série do ensino fundamental, por gastar mais horas tentando arrecadar fundos para a Festa Junina da escola do que estudando para as provas. Mais tarde, o sonho da faculdade foi abandonado, pois o casamento e os filhos exigiram um tempo maior para conseguir o sustento da família. A única coisa que Itamar não perdeu foi a vontade de fazer o possível e o impossível para estar com a equipe do Botafogo. É necessário apenas alguns minutos de conversa sem compromisso para sentir a paixão nas lembranças resgatadas e o olhar longe, como quem busca vivenciar aquele sentimento novamente. Os apertos de mão com os moradores mostram que o “Presidente” é um entusiasta das aventuras alvinegras.

Mesmo reconhecidos pela Subprefeitura de Guaianases, o clube ainda luta muito para sobreviver. Contando com patrocinadores do bairro e com espaços como o CEU Jambeiro para as partidas do clube, a falta de interesse do poder público em ajudar qualquer modalidade esportiva faz o temor pelo esquecimento da arte de jogar bola ser ainda mais visível no ‘terrão’. Com sonhos de fama e de sair da situação de pertencer ao fundo da Zona Leste para cair nas graças da Europa, alguns pais procuram o Sr. Itamar, na busca de profissionalizar seus filhos, mas como ele mesmo diz: “Jogar no Botafogo é uma oportunidade de fazer um adulto mais honrado e compromissado em ter um futuro nos estudos e longe da marginalização que assombra a nossa região. Não estamos aqui para formar um craque, estamos aqui para formar um cidadão.”

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