Portela lançou Enredo 2020 nesta quarta-feira (07)

A Escola de Samba do Rio de Janeiro lançou o Enredo “Guajupiá, Terra sem Males” na Quadra histórica da Portelinha. O lançamento contou com a participação dos compositores da Ala Ary do Cavaco.

Foto Capa: Divulgação.

A Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela divulgou, na noite desta quarta-feira (07), a sinopse do Enredo 2020 “Guajupiá, Terra sem Males” assinado pelos Carnavalescos Renato e Márcia Lage. O lançamento contou com explicação e leitura do tema o público presente e também aos compositores da Ala Ary do Cavaco, batizada com este nome em homenagem ao Compositor Ary do Cavaco que ganhou cinco sambas pela Portela.

O Enredo 2020 da Majestade do Samba abordará os índios que habitavam a Capital Fluminense antes da chegada dos portugueses ao Brasil. A obra falará sobre o modo de vida, a cultural e a herança espiritual que a ancestralidade indígena deixou como legado à Cidade do Rio de Janeiro. A azul e branco será a sétima agremiação a se apresentar no domingo, pelo Grupo Especial.

Confira a Sinopse do Enredo:

GUAJUPIÁ, TERRA SEM MALES

IRIN-MAGÉ, PAJÉ DO MEL, POVOADOR DA TERRA…

Todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes, desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado.

Então veio castigo. O fogo desceu do céu e destruiu tudo sobre a terra. Apenas um homem considerado digno, foi poupado desse castigo. Seu nome era Irin-Magé.

Levado para o céu ele, aos prantos, diz à Monã, que seria difícil viver sem pares nesse imenso vazio. Comovido, Monã reverte a situação, e fez com que caísse um dilúvio sobre a terra. Dessa água surgiram os oceanos, os rios e tudo frutificou.

Monã então deu a Irin-Magé uma mulher e o mandou de volta à terra para que ele a repovoasse de homens melhores. Dentre os muitos de seus filhos, nasce um em especial que se tornaria o grande guru, o grande karaíba, “o profeta transformador”, chamado Maíramûana.

Familiar de Monã, Maíramûana aprendera a arte de transformar tudo o que quisesse de acordo com sua vontade nas mais diversas formas; de animais, pássaros, peixes e para punir os homens podia transformá-los também ao seu bel-prazer.

É esse profeta-guru, dotado de poderes e conhecimentos “sobrenaturais” e misteriosos, quem ensinará todas as práticas sagradas, todos os costumes e regras da organização social das tribos tupinambás.

BAÍA DA GUANABARA, NOSSO GUAJUPIÁ

Na beleza do azul sobre o azul, da calma sobre a calma, um curso d’água serpenteia num vale de árvores verdes e frondosas. Em todas as direções a floresta é vívida. Há que se fiar no Sol, a luz é cultivada e tudo deve ser puro.

O rio é o caminho, é sagrado, tem peixe, tem marisco. As aves voam livres, colorindo o céu. Temos tudo ao alcance das mãos, água de beber, de lavar e de se banhar. Vivemos a vida em profunda gratidão.

Mas além de pescar e caçar, somos também bravos guerreiros. Só aqueles que enfrentam a morte, sem medo, conseguem encontrar o Guajupiá. Os tupinambás representavam esse paraíso como um lugar idílico, recoberto de flores e regado por um maravilhoso rio, em cujas margens viam-se enormes árvores.

E nenhum lugar poderia ser tão igual ao imaginado Guajupiá eterno do que um Rio de Janeiro ainda virgem.

NASCE UM KARIÓKA

Chemembuira rakuritim, chemebuira rakuritim (eu já vou parir, eu já vou parir)

Nasce um tupinambá. Ritos e tradições serão seguidos, para assegurar bons presságios. Unhas de onça e garras de águia, ornarão o berço-rede, para garantir que nada de mal lhe aconteça.

Pai, mãe, filhos, avós, tios, tias, primos e primas, se juntam, está formada a maloca, a casa coletiva da tribo. Cercando o okara (grande quintal) se construía uma taba. Karióka, a lendária taba tupinambá, surge majestosa à esquerda da paradisíaca baía de kûánãpará.

O homem roçava a terra, plantava, fabricava canoas, arcos, flechas, tacapes, adornos de penas multicoloridas. Eram eles os responsáveis pela segurança das tabas.  E sua função primordial era a de ensinar a arte da guerra.

Às mulheres eram imputadas as rígidas tradições e responsabilidades tribais, cuidavam da horta, participavam da pesca, fiavam algodão, teciam redes, fitas para amarrar nos cabelos e faixas para amarrar as crianças, trançavam cestos em junco e vime, manuseavam o barro para produzir panelas, vasilhas e potes, e mantinham acesos os dois fogos junto a rede do chefe da família. Eram o sustentáculo para o “esforço de guerra” tão cultivado pelo tupinambás.

Aos mais velhos cabiam repassar oralmente as histórias, o saber, e as orientações do que deveriam fazer, aos ainda jovens, em cada fase de sua vida.

Os tupinambás acreditavam que o homem tinha duas substâncias essenciais: uma eterna e outra transitória e ambas, o corpo e a alma, estavam ligadas.

KAÛÍ, A BEBIDA “DOS DEUSES”

Ó vinho, ó bom vinho! Jamais existiu outro igual!

Ó vinho, ó bom vinho! Vamos beber à vontade.

Ó vinho, ó bom vinho! Ó bebida que não dá preguiça!

Peguem as canoas! Passem pelas tabas: Yabebira – a aldeia maracanã, a do Peixe Pirá, de Eiraiá – atual Irajá – e sigam em direção a Guirá Guaçu, a aldeia com nome de águia, porque a festa vai começar!

Ao som dos marakás, chocalhos, flautas, tambores, pífanos e apitos, cantamos e dançamos. Tem que ter Kaûi ou Cauim, o licor sagrado que tanto adoramos.

A bebida era feita de raízes e frutos. As propriedades inebriantes do cauim eram feitas pela mastigação, e esse processo era considerado místico. Só mulheres, as mais lindas e puras, podiam participar da fabricação do “vinho”. Os tupinambás eram beberrões respeitados e era difícil acompanha-los. A festa poderia durar vários dias, enquanto houvesse bebida, porque disposição para consumi-la não faltaria.

… E todas as bênçãos criadas por Monã (o Deus dos Tupinambás) trariam felicidade e contentamento a todos os seres aqui existentes, menos para o homem. Insurgentes desprezaram tudo o que generosamente lhes fora dado. Então veio castigo…

Um Rio teve que acabar para que outro pudesse surgir. Como poderia ter sido se tivéssemos respeitado a diversidade étnico-cultural? Enterrada no esquecimento perdemos o elo com nossa ancestralidade primal, perderam eles, perdemos nós, absurdamente privados dessa experiência!

GUAJUPIÁ, O QUE FIZEMOS DE TI?

Essa coisa do azul sobre o azul

Da calma sobre a calma

Às vezes me cansa

Às vezes me acalma

Eu paro no sinal vermelho

Uns pedem dinheiro

Uns sacam o revólver

Um outro expõe a própria dor

Segue o asfalto

Metálico fluxo

Saudade é um retrovisor

Há que se fiar no sol

E cultivar a luz

Purificar o pus

Deus

Assisto a vitória do bronco, do bruto

Do sínico e da servidão

Segue o espetáculo

No estádio, na tela

Parlamentam sobre a escrotidão

Mas quando a tribo invadir a floresta

Subindo até o Sumaré

E deslinkar a torre, o Brasil

Meu mano então como é que é?

Há que se firmar na terra

O teto, o viaduto

Proliferar o fruto

Deus

(em memória – letra da música “Palas Superficiais”, de Marco Jabu)

“Cavam em busca de uma coisa

Que se sente estar profunda

Mas que foge e se esquiva

Quando chega à superfície

Uma coisa que está ali

Numa terra de mistério”.

(Poema de Joaquim Cardozo)

Autores: Renato Lage e Márcia Lage

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