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Foto de Capa: Vanessa Mazzochi
O rádio sempre foi o companheiro do sambista no barracão, na cozinha e na avenida. Em uma iniciativa que une a técnica da transmissão externa ao registro histórico, a Rádio Sintonia de Bambas, em parceria com a GRU FM, transformou o Camarote da Velha Guarda da Liga-SP em um estúdio de memória viva durante os desfiles das Escolas de Samba no Carnaval 2026.
Diferente das coberturas convencionais, focadas no resultado das notas, a equipe liderada por José Carlos Alvarenga e Valdir Sena priorizou a escuta da Velha Guarda. A transmissão tornou-se um documento oral ao registrar as impressões de grandes nomes do samba e do Carnaval presentes no espaço.
A equipe recebeu autoridades como Fernando Penteado, conhecido como a “enciclopédia viva” da Vai-Vai. Também passaram pelo estúdio Simone Tobias (Camisa Verde e Branco), neta do lendário Inocêncio Tobias, fundador do Cordão do Camisa Verde e Branco e Vera Lúcia, a Verinha, que carrega o DNA do Bixiga e participa ativamente do Conselho da Velha Guarda. E não podemos esquecer de Irene de Campos, a Tia Nena, matriarca que guarda os fundamentos da Barroca Zona Sul. Essas mulheres não são apenas Velha Guarda: são donas da casa.
Um dos pontos altos da cobertura foi o registro da presença de J. Jadir Muniz. Escritor e “Cidadão Samba”, ele levou ao ar a herança de seu pai, o lendário J. Muniz Jr., conhecido como o “Marechal do Samba”. O diálogo reafirmou a importância do intercâmbio cultural. Quando José Carlos Alvarenga menciona a alegria de conversar com Jadir, fala de um encontro que mantém viva a história contada por um Carnaval.
Jadir é filho de J. Muniz Jr., o jornalista que, nos anos 1960, utilizou a Gazeta Esportiva para defender que o samba era assunto sério. Foi ele quem criou a Rede Nacional do Samba, levando nomes como Cartola ao litoral paulista. “Tivemos o prazer de estar com Jadir Muniz, filho do J. Muniz Jr., um jornalista da melhor qualidade que fez muito pelo samba”, destacou Alvarenga.
A direção da rádio, por meio de seus locutores, fez questão de registrar o apoio institucional de lideranças como Orlando de Castro (Landão), Arnaldo Guedes, Orlando Balbino e Raimundo Mercadoria. Valdir Sena destacou que essa foi uma das melhores transmissões da história da emissora. E o motivo, segundo ele, é simples: o espaço foi aberto por quem entende do riscado. Nomes como Fernando Penteado, Orlando Balbino, baluarte da Nenê de Vila Matilde, Arnaldo Guedes (Peruche) e o mestre dos mestres, Raimundo Mercadoria, foram protagonistas desse registro.
“Foi uma das melhores transmissões que fizemos, porque conseguimos registrar a importância da Velha Guarda e a visão deles sobre o atual Carnaval. Isso enriquece nosso trabalho de documentário”, pontuou Valdir Sena no balanço final da cobertura.
A cobertura no Camarote da Velha Guarda foi um projeto conduzido a muitas mãos. Valdir Sena destaca a parceria fundamental com José Carlos Alvarenga, seu braço direito na condução das entrevistas e na curadoria dos convidados. Oswaldo Eugênio esteve presente no desfile das Escolas de Samba do Grupo de Acesso 2, mas um acidente o impediu de estar fisicamente no Camarote durante os desfiles do Acesso 1 e do Grupo Especial.
Muitas vezes, a história do samba se perde porque ninguém para para ouvir quem a construiu. Em seu depoimento, José Carlos Alvarenga relembra que até pessoas de camarotes vizinhos pararam para sentir a emoção de ver a Nenê de Vila Matilde atravessar o Anhembi. O som das baterias ainda vibra no peito, mas o que fica de 2026 é o silêncio respeitoso que se formou no Camarote da Velha Guarda para ouvir a voz dos nossos mestres.
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