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Antônia Maria Rodrigues (Dona Nena) e Arnaldo Guedes, baluartes do samba paulistano, em entrevista para o Sintonia de Bambas no Sambódromo do Anhembi.

Quando a Velha Guarda pisa, o tempo pede licença

A abertura da noite no Anhembi transforma a avenida em território de memória, onde Dona Nena e Arnaldo Guedes reafirmam o legado que sustenta o futuro do samba paulistano.

por Josy Dinorah
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Foto capa: Dayse Pacífico

Às 21h, o Sambódromo do Anhembi deixa de ser apenas um palco de desfile das escolas de samba para se converter em solo sagrado de encontro. Quando a União das Velhas Guardas inicia sua caminhada, o relógio do Carnaval desacelera para permitir que os pavilhões se reconheçam. A pressa do espetáculo abre espaço para o fundamento de quem já construiu a história do Carnaval de São Paulo.

Dona Nena, mulher e baluarte do samba

Dona Nena (Foto: Vanessa Mazzochi)

No centro deste desfile de respeito e resistência está Antônia Maria Rodrigues, a Dona Nena. No dia 1º de fevereiro, ela completou 80 anos de idade, com uma trajetória que se entrelaça ao samba desde os sete anos de vida. Sua biografia se confunde com a própria estrutura institucional do samba paulistano: articuladora política e formadora de gerações de casais de mestre-sala e porta-bandeira, ela é responsável por dar voz aos veteranos quando ainda não havia holofotes para eles.

“O maior troféu para o Carnaval de São Paulo e do Rio de Janeiro é a manutenção da nossa verdadeira essência”, afirma Dona Nena.

Foi na casa dela que nasceu a sede da Associação das Velhas Guardas das Escolas de Samba do Estado de São Paulo. Foi também de sua experiência que se consolidou a compreensão de que tradição não é adereço, é método. Por isso, ao observar os casais contemporâneos, sua análise não parte da nostalgia, mas da régua histórica.

“Antigamente, o pavilhão era defendido com a vida; o casal se apresentava para a escola e para o público. Hoje, observo casais que parecem ‘limpar’ a avenida, com movimentos excessivos que não condizem com a nossa raiz”, comenta no auge de sua sabedoria. A crítica é direta, mas nasce do cuidado. Para Dona Nena, cada gesto na avenida comunica soberania cultural.

Fotografia de Arnaldo Guedes e Mestre Penteado, dois homens negros e baluartes do samba.

Mestre Arnaldo do ao lado de Mestre Penteado. (Foto: Vanessa Mazzochi)

Essa mesma lógica atravessa a fala de Arnaldo Guedes, baluarte que ajudou a expandir o saber carnavalesco para além do eixo tradicional e fez história na Zona Leste. Ao acompanhar a abertura dos desfiles das escolas de samba do Grupo de Acesso II e conceder entrevista para a Rádio Sintonia de Bambas, ele reconheceu ali a materialização de um desejo antigo.

“A semente está aí, foi lançada e, graças a Deus, está germinando”, afirma, citando o desfile da Liga do Amanhã, ocorrido no último sábado (07).

Ao explicar quem são os ‘Crioulos’, o bamba oferece a chave de leitura da própria Velha Guarda: “São os contadores de histórias, aqueles que preservam a cultura e transmitem o conhecimento através da oralidade”. Mas Arnaldo também não ignora as tensões do presente. A profissionalização trouxe ganhos técnicos, porém, em sua avaliação, reduziu marcas de identidade.

“Hoje, infelizmente, tudo está muito igual. Eles engessaram as baterias… Isso retirou a individualidade das escolas. O Carnaval que a gente mais gosta é esse mais solto, mais alegre”, disse o mestre.

O desfile desta noite não se limita a reverenciar o passado; ele reafirma a continuidade. Em Dona Nena, a sucessão atravessa a família: da própria trajetória à filha, Sueli Rodrigues, e chega à neta Bia Rodrigues, hoje integrante da Rosas de Ouro. Já em Arnaldo, a permanência aparece na semente plantada para que os mais novos ocupem a avenida. Em comum, ambos guardam a mesma convicção: o samba segue porque alguém aceita a responsabilidade de levá-lo adiante. Como resume Dona Nena: “Precisamos ter consciência de que o apresentador de casal não é um mestre de cerimônias comum; ele é o guardião de um rito”.

Se na semana passada os pequenos da Liga do Amanhã deram o primeiro passo, hoje são os mestres que desenham o rumo da caminhada. Entre memória e futuro, o que se vê na avenida é a prova de que tradição não é passado: é permanência. O samba segue como corrente viva, atravessa gerações e jamais se quebra.

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