Foto Capa: Jimmy Santos / Sintonia de Bambas
Na última segunda-feira, 14 de julho, a Fábrica do Samba foi palco da quarta edição do evento Samba de Primeira, promovido pelo Departamento das Velhas Guardas da LIGA-SP. A celebração reuniu bambas e apaixonados pelo Carnaval em apresentações com André Menezes e o Terreirão da Vila, Filial do Samba com Bernadete, a Velha Guarda Musical da Unidos do Peruche e o novo intérprete da escola Agnaldo Amaral e, ainda, a presença da ilustre Nanãna da Mangueira.
Para a Rádio Sintonia de Bambas, a emoção da noite foi além da música. Durante o evento, o projeto “Documentário de Memórias”, idealizado por Valdir Sena e José Alvarenga, deu continuidade à sua missão de preservar a memória viva do carnaval paulistano. O entrevistado da vez foi Orlando Balbino da Silva, o Mestre Landão — baluarte, embaixador, mestre-sala, ritmista, diretor de harmonia, ex-Rei Momo e símbolo imortalizado na escola Nenê de Vila Matilde.
Junto de nossos entrevistadores Valdir Sena, José Alvarenga e Osvaldo Eugênio (o Vado), Landão revistou sua trajetória e os caminhos que o fizeram se tornar um dos nomes mais respeitados do carnaval paulistano.
“Sem o samba, a gente não vive”
Nascido no tradicional bairro do Bixiga, berço do samba em São Paulo, Landão veio ao mundo na rua Frei Caneca, na antiga maternidade São Paulo — que foi demolida em 2014 e que viu nascer também figuras importantes da história do país como Ayrton Senna e Paulo Malluf. E desde cedo, o som do samba já moldava o destino do grande bamba.
Filho de uma Rainha da Saracura, Landão cresceu em uma família que respirava samba, com raízes profundas na torcida dos cordões Fio de Ouro e Vai Vai. Logo após a perda precoce da mãe, ele foi criado na Vila Matilde, onde viveu sua infância no Largo do Peixe — considerado o berço da escola de samba Nenê de Vila Matilde.
Landão relembra as dificuldades de crescer em meio à discriminação contra o samba: “Quando eu comecei a me desenvolver, cresci ali no Lago do Peixe. Foi ali que comecei a conhecer o samba, comecei a gostar do samba, né? Só que eu não podia sair na escola, porque na época o samba era discriminado. Existiam várias barreiras, era uma resistência terrível. O samba era muito discriminado. Mas eu gostava. Mesmo assim, eu gostava.”
Ele sofreu também com a desaprovação familiar — que via o samba como coisa de “ladrão, maloqueiro, bandido” — e a ameaça de perder o emprego caso aparecesse na televisão durante o desfile: “O meu patrão me chamou e falou assim – ‘Tô sabendo que você tá saindo no Carnaval, na escola de samba. Se eu te ver na televisão, eu vou te mandar embora.’ – Eu não sabia o que fazer. Quando chegava a época do Carnaval, era a TV Excelsior, né? (extinta em 1970, crivo nosso). Era ela que fazia a cobertura do desfile. Então… era difícil pra mim! Quando a câmera vinha pro meu lado, eu tinha que me esconder, virar o rosto. É porque eu tinha medo do quê? De perder o emprego. De o meu pai ficar sabendo, né?” – relembra, Landão.
Mas mesmo com tanta torcida contra, Landão jamais abandonou sua paixão. Ele criou até uma estratégia para esconder sua fantasia: “Na esquina da Rua Amaro Bezerra Cavalcanti, entre ela e a Rua José Mascarenhas — saindo do Lago do Peixe, do lado esquerdo — tinha um campinho onde a gente costumava brincar. Ali, bem na primeira esquina, no alto, eu cavei um buraco. Enrolei minha fantasia num plástico, escondi e enterrei. Com o tempo, minha família descobriu tudo e ficou muito brava. Mas aí já era tarde. Não dava mais pra voltar atrás.”. Sobre sua família, que preferia a Vai Vai, ele diz:
“Meu coração pulsava, e ainda hoje pulsa, pela Nenê de Vila Matilde.”
“O Carnaval é uma brincadeira séria”
Ao longo dos anos, Landão tornou-se uma peça-chave na Nenê de Vila Matilde, atuando como passista, mestre-sala, diretor geral de harmonia e muitas outras frentes. Ele conviveu com grandes nomes da escola como Paulistinha, Juju, Ninhão e Nicolau. E o mestre também fez uma análise dos desafios atuais do Carnaval: “Hoje em dia, se você não acompanhar a evolução do Carnaval — independente do jeito que ele esteja — se não acompanhar a maneira como ele é feito, fica difícil. Uma escola que não tem estrutura, que não tem pessoas experientes, fica para trás.” – enfatizou.
E com tom de seriedade da folia, ela fala da importância de uma equipe bem preparada para o sucesso de um desfile, com diretores, carnavalescos, bateria e uma administração firme, lembrando que a competição está num nível altíssimo.
“Memória viva de um Bamba”
Ele nos prestigiou com um memória invejável. Landão puxou sambas antigos durante a entrevista, recordando momentos em que eles eram compostos rapidamente em mesas de bar — verdadeiras “psicografias” dos enredos de Carnaval. Ele citou Paulistinha, um dos maiores compositores da escola, que fazia sambas no balcão do Bar Madeira, no Largo do Peixe: “O primeiro lugar que eu tenho que falar é o Paulistinha. O Paulistinha fazia samba. No Lago do Peixe tinha um bar chamado Bar Madeira. O Paulistinha pegava a sinopse e fazia o samba no balcão, perto da gente. Em cinco minutos, talvez até menos. Ele começava e terminava ali mesmo. Letra e melodia. Depois do Sr. Nenê, o maior baluarte da Nenê chama-se Álvaro Rosa, o Paulistinha. E o que acontecia? Ele fazia tudo com sua cachacinha. Parecia que psicografava o samba. Aí ele chamava as pastoras e dizia – ‘Tá pronto o samba!’ e — ‘ZONA LESTE, somos nós!’ Até hoje, essa frase está aí.”
Sobre o samba-enredo “Narciso Negro”, composto por Vado, ele ressaltou o sucesso da obra que embalou a comunidade inteira. Já, José Alvarenga comentou sobre a importância do samba como aprendizado cultural e Landão complementa:
“Isso é da nossa pele, da nossa cor, da nossa raça. Era tudo samba-enredo — liberdade, história do Brasil. Hoje é patrocínio daqui, patrocínio dali. A originalidade…”
Uma das homenagens que reconhecem a importância de Landão para a cultura e o Carnaval de São Paulo, a imagem de Landão foi eternizada em um mural na Estação de Trem da Vila Matilde, ao lado do fundador da Nenê de Vila Matilde, Seu Nenê — uma homenagem justa a um símbolo de resistência e amor ao samba.
A entrevista de Mestre Landão é a segunda da série “Documentário de Memórias”, projeto que registra as vozes que construíram o samba paulistano, garantindo que suas histórias e ensinamentos não se percam no tempo.
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[…] Na última segunda-feira, 11 de agosto, o Departamento de Velhas Guardas da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo promoveu um encontro de gerações. No palco, apresentação da Velha Guarda Musical da Camisa Verde e Branco, o cantor e compositor Robson Capela, o cantor André Menezes e o grupo Terreirão da Vila mantiveram a chama acesa junto com a dupla Marco Antonio e Zé Maria. E neste clima que tivemos mais um episódio do documentário “Documentário de Memórias”, da Rádio Sintonia de Bambas. […]