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História, fé e luta: Velhas Guardas relembram raízes e desafios do carnaval de São Paulo

Em uma noite fria de segunda-feira, a Fábrica do Samba se aqueceu com o calor do samba e a força da ancestralidade. O evento "Samba de Primeira", em sua 5ª edição, mais do que uma roda de samba, é um ato de resistência para contar a história do carnaval de São Paulo.

por Josy Dinorah
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Foto Capa: Vanessa Mazzochi

Na última segunda-feira, 11 de agosto, o Departamento de Velhas Guardas da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo promoveu um encontro de gerações. No palco, apresentação da Velha Guarda Musical da Camisa Verde e Branco, o cantor e compositor Robson Capela, o cantor André Menezes e o grupo Terreirão da Vila mantiveram a chama acesa junto com a dupla Marco Antonio e Zé Maria. E neste clima que tivemos mais um episódio do documentário “Documentário de Memórias”, da Rádio Sintonia de Bambas.

O carnaval paulistano, que hoje movimenta milhões de pessoas no Sambódromo do Anhembi, nasceu de forma humilde e marginalizada que, majoritariamente, era a população negra e operária em bairros como Barra Funda e Bixiga. Bairros que foram os embriões das gigantes na Avenida, como Camisa Verde e Branco e Vai-Vai. Essa história de luta e resistência é a herança que as Velhas Guardas, protagonistas do ‘Samba de Primeira’ e a Rádio Sintonia de Bambas, se esforçam para preservar.

Entre a tradição e a gestão, o caminho do futuro do carnaval

Foto: Vanessa Mazzochi

Mediando a conversa, Valdir Sena e José Alvarenga trouxeram à tona as perspectivas para o futuro do carnaval, diretamente de quem vive e respirou a organização da festa. Aline Torres, que esteve à frente da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo entre 2021 e 2024, destacou a importância de espaços como aquele para a continuidade da história. Aqui a gente tem história, tradição, afeto e respeito. E aqui conseguimos dar continuidade, de verdade, à nossa história. É aqui que eu estou, e hoje estou muito feliz. Fizemos uma gestão na Secretaria da Cultura que apoiou e valorizou o carnaval. Por isso, ver hoje o Sr. Penteado realizar essa ação, garantindo que todas as velhas guardas da Liga e das escolas de samba tenham o seu dia, o seu espaço, a sua manutenção e o seu momento, me faz querer estar cada vez mais perto.“, afirmou.

Hoje presidindo a Fundação Ponte Criativa Global, Torres reforçou seu compromisso em fomentar projetos culturais por todo o Brasil, mas sem jamais abandonar suas raízes. Questionada sobre um possível retorno à política, ela foi enfática: “A política não sai de mim (…) é a ferramenta que a gente tem de mudar a nossa realidade pra melhor.” Sua gestão foi marcada por um esforço de valorização do carnaval como potência cultural e econômica, aproximando a Secretaria da organização dos desfiles.

A resistência do Vai-Vai contra as marcas do progresso

A noite também foi um mergulho profundo na história e curiosidades de uma das mais tradicionais escolas de São Paulo, a Vai-Vai. Fernando Penteado, neto de um dos fundadores da “Escola do Povo” e uma lenda viva do carnaval, falou com a paixão e a franqueza que marcam a comunidade do Bixiga. “O Vai-Vai hoje está do jeito que é sempre o Vai-Vai. Quando está tudo certo, o Vai-Vai está tudo errado. O Vai-Vai tem que ter um desvio para ele se acertar”, confidenciou.

A declaração de Penteado reflete a trajetória da agremiação, maior campeã do carnaval paulistano. A escola sempre encontrou na força de sua comunidade a superação para os problemas de diretoria e as adversidades. Uma dessas adversidades recentes foi a perda de sua histórica quadra na Rua São Vicente, desapropriada para as obras do metrô e Penteado relembrou, com uma ponta de indignação e misticismo, a luta pelo espaço.

“O Vai-Vai era de chutar a porta e pedir licença. Agora, nós estamos batendo na porta e, se ninguém abre, a gente não entra. Isso não é a cara do Vai-Vai. Perdemos a nossa quadra. Pela segunda vez cedemos o nosso espaço para o progresso! A primeira foi em 1971, para a passagem do Minhocão, e nós fomos para a Praça 14 Bis. Depois de 52 anos, tivemos que sair por causa da chegada do metrô.

E olha como são as coisas: o projeto do metrô, antes, previa construir a estação e fazer a AGV em cima. A gente pediu para fazer a mesma coisa no local onde estávamos, mas disseram que não podia! Mas como é que vocês iam fazer com a AGV? Entendeu? Enfim, fomos despejados outra vez!

Eu até falei para o engenheiro: você pode me despejar, eu, pessoa física. Mas a entidade que está fincada aqui dentro, essa você nunca vai tirar. Nosso espaço foi assentado para Exu. Tanto que a obra do metrô atrasou quatro anos. Agora que estão tentando recomeçar, já caiu trator no buraco, o Saracura encheu, inundou tudo… Falei: “É o Exu que está aqui”.

Se você prestar atenção, lá onde era a quadra, tem a 14 Bis, tem a São Vicente que desce, tem a Lourenço Granado e tem a Ruazinha da Feira. É um tridente de Exu! E esse braço sai para a 14 Bis. Justamente ali, no meio, foi feito o assentamento de Exu.”

Apesar dos percalços, a escola se prepara para o carnaval de 2026, com um enredo sobre o povo de São Bernardo do Campo. O espírito, garante Penteado, continua sendo o da rua. “Nós estamos há 95 anos na rua. O que é uma flechada a mais para São Sebastião?”.

A conversa também homenageou uma figura emblemática da história recente do Vai-Vai e do carnaval paulistano: Sólon Tadeu Pereira. Presidente da escola em uma de suas fases mais vitoriosas e também da Liga-SP, Sólon foi um visionário, responsável por revolucionar os desfiles com grandes alegorias e firmar contratos de transmissão com a rede Globo que deram nova dimensão à festa. Recentemente, um viaduto próximo ao Sambódromo do Anhembi foi batizado com seu nome, em reconhecimento ao seu legado. Penteado revelou uma faceta pouco conhecida de Sólon: sua generosidade, ao ceder parte de um terreno conquistado para a construção do barracão do Império de Casa Verde.

No Samba de Primeira, a Velha Guarda lembra que o carnaval é memória, resistência e identidade

Da Zona Leste, o compositor Marco Antônio, uma referência na Mocidade Alegre e na Nenê de Vila Matilde, trouxe a perspectiva de outra gigante do samba paulistano. Pela primeira vez no evento, ele se encantou com a atmosfera. “Estou achando tudo muito maravilhoso (…) essa noite gelada e a casa lotada”.

A Nenê de Vila Matilde, fundada em 1949 por um grupo liderado por “Seu Nenê”, foi uma das pioneiras na oficialização do carnaval. Em 1968, sagrou-se a primeira campeã do desfile oficial da cidade. A “Águia Guerreira”, como é carinhosamente chamada, ostenta 11 títulos do Grupo Especial e foi a primeira e única escola paulistana a desfilar na Marquês de Sapucaí, no desfile das campeãs de 1985.

No entanto, os últimos anos têm sido de desafios. “Faz três anos que nós estamos batendo na trave, mas uma hora chega. Uma hora é gol”, desabafou Marco Antônio sobre a busca pelo retorno ao Grupo Especial. Ele ressaltou o trabalho árduo da atual gestão e a complexidade de comandar uma agremiação com o peso e a herança de “Seu Nenê”.

A noite no “Samba de Primeira” foi mais um lembrete poderoso de que o carnaval de São Paulo é muito mais do que a festa transmitida pela televisão. É uma manifestação cultural profunda, construída sobre a resistência, a paixão e a memória de homens e mulheres que, por décadas, lutaram para que o samba não perdesse sua identidade. Em um mundo de transformações aceleradas, a voz da Velha Guarda soa como um mantra, um guia para que as futuras gerações não se esqueçam de onde vieram e, assim, saibam para onde ir. E com essa força, que o Sintonia de Bambas continua seu projeto de registro e memórias de quem fez e ainda faz muita história no carnaval.

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