Foto Capa: Jimmy Santos
A Uirapuru da Mooca ocupou o Anhembi para reivindicar um lugar na história oficial que os registros tradicionais tentaram apagar. Com o enredo “Maria Felipa – No Balanço da Maré, a Heroína da Independência”, a escola da Zona Leste transformou a avenida em um território de memória e afirmação política. Ao centralizar Maria Felipa de Oliveira na narrativa, a agremiação devolveu visibilidade às mulheres negras que foram decisivas na expulsão das tropas portuguesas em 1823.
Fazendo sua estreia pela agremiação, o intérprete Thiago Brito, com seu tradicional grito de guerra “Está chegando a escola da minha vida!”, abriu caminho para um desfile marcado pela consciência coletiva de quem canta não uma lenda, mas uma vitória popular. Na avenida, o samba ecoou como relato de luta forjada fora dos salões imperiais, nas mãos calejadas de quem vivia do mar.
ENTENDA O ENREDO
O enredo da Uirapuru da Mooca parte de uma distinção fundamental da história brasileira: a Independência proclamada em 1822 só se tornou concreta após as batalhas travadas em território baiano. É nesse contexto que emerge Maria Felipa de Oliveira, mulher negra, marisqueira e líder popular da Ilha de Itaparica, cuja atuação foi decisiva na expulsão definitiva das tropas portuguesas em 1823.
Enquanto a narrativa oficial consagrou acordos políticos e figuras masculinas da elite, o desfile evidencia a Independência como um processo em disputa, sustentado pela ação direta do povo. Maria Felipa organizou grupos de resistência formados por mulheres e homens negros que incendiaram embarcações inimigas, sabotaram o avanço português e garantiram a soberania do território baiano.
Ao destacar essa trajetória, a Uirapuru reafirma que a Independência do Brasil não se encerra no 7 de setembro de 1822. Ela se completa no 2 de julho de 1823, quando a luta popular, liderada por mulheres negras como Maria Felipa, assegura que o país deixasse de ser colônia não apenas no papel, mas na prática.
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