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A Acadêmicos do Tatuapé apresentou um desfile que ultrapassa a dimensão plástica do Carnaval. Ao levar para a avenida o enredo “Plantar para Colher e Alimentar: Tem Muita Terra Sem Gente e Muita Gente Sem Terra”, a escola colocou no centro da cena uma discussão que atravessa séculos da história brasileira e permanece aberta: quem tem direito à terra e para quem ela deve produzir.
Em parceria direta com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a narrativa defendeu a agroecologia, a agricultura familiar e a soberania alimentar como caminhos concretos de reorganização do país. Não se tratava apenas de homenagear um movimento social, mas de reconhecer o campo como território de disputa política e de sobrevivência.
Se a proposta era provocar, a resposta veio no canto. A ala musical conduziu a escola com segurança, e o refrão encontrou eco imediato nas arquibancadas. Criou-se ali um daqueles raros momentos em que o desfile deixa de ser somente espetáculo para se transformar em identificação coletiva.
A voz de Celsinho Mody funcionou como fio narrativo, conectando alegorias, alas e público. Sustentada pela bateria “Qualidade Especial”, do Mestre Cassiano Andrade, a condução musical ajudou a traduzir a dimensão simbólica da proposta: da terra como entidade sagrada ao alimento que chega diariamente à mesa.
Ao trazer para a avenida figuras reconhecidas do jornalismo, como Chico Pinheiro, a Tatuapé ampliou a ponte entre o desfile e o cotidiano, lembrando que o debate apresentado ali ultrapassa os limites da passarela e continua fora dela.
ENTENDA O ENREDO
A concentração de terras no Brasil é a espinha dorsal da narrativa construída pela escola. Do direito ancestral dos povos originários à organização contemporânea dos trabalhadores rurais, o desfile apresentou a luta por território como parte estruturante da identidade nacional.
Ao valorizar a produção coletiva, a partilha e o cultivo responsável, a Tatuapé reafirma que a terra cumpre sua função social quando gera vida, trabalho e alimento. A mensagem é direta, mas construída com cuidado: enfrentar a fome e a exploração predatória passa necessariamente pelo reconhecimento de quem planta.
Mais do que responder, a escola propõe uma reflexão. Em um país que ainda convive com profundas desigualdades no campo, o samba pergunta que futuro é possível quando o acesso à terra segue sendo privilégio de poucos.
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