Foto Capa: Felipe Araújo / LigaSP
A Águia de Ouro levou para o Anhembi um desfile que escolheu não pedir licença. Segunda escola a se apresentar na noite, a agremiação apostou na leitura de Amsterdã como território simbólico de acolhimento, onde a diferença não é desvio, é a liberdade individual.
Com desenvolvimento de Alexandre Louzada, a narrativa construiu uma ponte direta entre a Pompeia e a Europa. O requinte plástico apareceu em alegorias de grande impacto e acabamento minucioso, sustentando um enredo que tratava de liberdade religiosa, sexual e de pensamento. A parceria com a Amstel ajudou a viabilizar a grandiosidade visual que transformou a avenida em um percurso pelos canais da cidade.
Se a proposta era provocar, funcionou. A presença de referências à cannabis e ao Distrito da Luz Vermelha inflamou debates imediatos nas redes sociais. Entre aplausos à coragem e críticas de quem prefere um carnaval menos explícito, a escola conseguiu o que muitos tentam: fazer o carnaval continuar depois do último carro.
A tensão marcou a dispersão. O presidente Sidnei Carriuolo foi atingido pelo portão durante a manobra das alegorias. Ele recebeu atendimento imediato e seguiu para avaliação médica, até o momento as informações é que seu quadro está estável.
ENTENDA O ENREDO
“Mokum” é uma palavra de origem iídiche que significa porto seguro. Ela organizou a narrativa proposta pela escola. A ideia de abrigo, de lugar possível para existir, conduziu a travessia histórica apresentada no desfile.
A homenagem à jovem Anne Frank foi tratada como eixo de memória incontornável. A escola buscou referências na Casa de Anne Frank para sustentar um tributo respeitoso à resistência judaica durante a ocupação nazista.
Ao mesmo tempo, a Águia assumiu a face contemporânea da cidade. Coffee shops, vitrines e a vida noturna surgiram como símbolos de uma sociedade que institucionalizou o debate sobre escolhas individuais. Não se tratava de apologia, mas de retrato da cultura de Amsterdam. Através do refrão “Diversidade não é pecado”, a escola conectou a sociedade holandesa à necessidade de um “lugar seguro” para todas as existências.
A Águia de Ouro em 2026 nos lembra que o Carnaval é, antes de tudo, um território de liberdade. A agremiação entendeu algo decisivo sobre o nosso tempo. Falar de liberdade hoje é aceitar desconfortos, enfrentar ruídos e admitir que nem todo mundo sairá satisfeito.
Ao transformar Amsterdã em espelho, a Águia obrigou o público a se perguntar que tipo de cidade queremos ser. E quando o carnaval produz pergunta em vez de resposta fácil, ele cresce. A noite segue, a disputa pelo título aperta, mas uma coisa já aconteceu: o carnaval provocou debates e isso também é vitória.
Facebook comentário