Foto Capa: Jimmy Santos
O Carnaval de São Paulo 2026 começou oficialmente neste sábado (07), e embaixo de chuva a Amizade Zona Leste foi a primeira escola a cruzar o Avenida no Anhembi. Fundada em São Mateus, território marcado pela autogestão cultural, a agremiação inaugurou os desfiles do Grupo de Acesso II reafirmando que escola de samba é uma instituição política e econômica da diáspora negra.
Há um ditado no samba que diz: “o Carnaval começa quando o desfile termina” e a Amizade levou essa máxima ao rigor técnico. Foi a primeira escola da cidade a anunciar o enredo para o Carnaval 2026, ainda em março de 2025. O que o sorteio dos desfiles apenas confirmou no simbolismo: a agremiação que iniciou o planejamento antes foi também a primeira a pisar na avenida.
ENTENDA O ENREDO
Ao homenagear as divindades com o enredo “Xangô e Iansã – O casal do Dendê no Ilê do Amizade”, a escola não utilizou a religiosidade como ornamento. Pelo contrário, o tema foi o eixo de um discurso sobre justiça e equilíbrio.
Xangô, orixá da justiça, e Iansã, senhora dos ventos, surgem como figuras de resistência em um país que ainda criminaliza matrizes africanas. Como apontava a intelectual Lélia Gonzalez, o racismo brasileiro se estrutura na negação da espiritualidade negra. Portanto, ao levar o casal sagrado ao Anhembi, a Amizade reivindica o direito à memória no espaço público.
Em 2025, a escola garantiu sua subida ao Anhembi ao abordar a caridade. Agora, no Carnaval 2026, mantém o foco em pautas sociais e ética comunitária. A agremiação lembrou à cidade que não há espetáculo sem fundamento. Enquanto houver pavilhão erguido com dignidade, o samba seguirá narrando o Brasil a partir de suas margens.
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