Foto Capa: Dayse Pacifico
A Barroca Zona Sul fechou a primeira noite de desfiles do Grupo Especial com a segurança de quem conhece seu lugar na história do samba. Com o enredo “Oro Mi Maió OXUM”, a agremiação levou o Anhembi para um território de fé, ancestralidade e poder feminino. Mais do que ouro e espelhos, cada alegoria, cada passo e cada gesto falou de resistência, identidade e pertencimento.
Com a assinatura do carnavalesco Pedro Magoo, a Barroca conectou a riqueza simbólica de Oxum e sua doçura e estratégia, maternidade e diplomacia com à própria história da comunidade. A bateria “Tudo Nosso”, liderada por Fernando Negão, traduziu a cadência do ritmo que parecia conduzir um rio na avenida, enquanto na ala musical Dodô Ananias e Rafael Tinguinha articulavam cada narrativa com precisão e calor. Entre eles, Juju Salimeni encarnou a opulência das águas douradas, lembrando que o ouro da fé e da tradição não se mede em brilho, mas em potência simbólica.
Ao longo do desfile, a escola transformou o Anhembi em espaço de encontro entre divindade e comunidade. Oxum deixou de ser apenas orixá de culto: tornou-se símbolo da resistência cultural e da força do feminino, conduzindo o público a perceber que, no Anhembi, espiritualidade e samba se entrelaçam com memória e política.
ENTENDA O ENREDO
O enredo parte da mitologia iorubá, onde Oxum recebe de Olodumare o segredo da vida e da fertilidade. Diferente de abordagens puramente estéticas, a narrativa explora a estratégia, a diplomacia e a força feminina da orixá, mostrando como sua atuação garante equilíbrio e prosperidade — tanto no plano espiritual quanto no simbólico.
A Barroca conecta esses princípios à própria história da comunidade: o ouro se torna riqueza ancestral, o espelho (abebé) instrumento de autoconhecimento e proteção. Em cada alegoria, cada ala, cada gesto, a escola reforça que a ancestralidade negra é força que guia o presente e aponta caminhos para o futuro.
O que se viu no Anhembi vai além da festa: foi um painel da história e das lutas do Brasil, onde memória negra, protagonismo feminino, resistência comunitária e disputas sociais se entrelaçaram na avenida. Cada escola trouxe à tona camadas de identidade e poder que a história oficial muitas vezes tenta silenciar.
Hoje, o segundo dia de desfiles do Grupo Especial promete intensificar essa disputa pelo principal título do Carnaval. Não apenas pela estética ou pontos de julgamento, mas pela força simbólica que cada comunidade carrega. O Carnaval de São Paulo em 2026 mostra que a batalha pelo respeito, visibilidade e justiça social se dá, também, no compasso do samba.
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