Foto Capa: Dayse Pacífico
O Camisa Verde e Branco tinha a responsabilidade de fechar o Grupo Especial na manhã deste domingo (15). Entrou na Avenida cercado de expectativa, confiança e um excelente samba que já havia ultrapassado o limite do ensaio para virar fenômeno popular.
Conduzido por Charles Silva, o hino tomou conta de um Anhembi banhado pelo sol da manhã. O clima era de congraçamento e entrega às energias de Exu. Havia resposta imediata da arquibancada. Parecia que a escola havia encontrado o ponto de força, transformando o desfile em uma gira de pura energia e axé.
Sob a assinatura do carnavalesco Guilherme Estevão, o desfile do Camisa realizou um gesto corajoso: posicionou Exu no centro da narrativa, exaltando a rua, o movimento e a dignidade histórica da Barra Funda. Mas o Carnaval também é uma operação técnica, e foi justamente na engrenagem da avenida que a gira encontrou tensão. Uma falha severa em uma alegoria interrompeu o fluxo, gerando um ‘efeito sanfona’ que desafiou a harmonia e evolução da escola. Enquanto a agremiação lutava para recompor o andamento do desfile, as alas mantiveram o canto vivo, provando a força da comunidade.
O cronômetro, implacável, marcou 1:06:19 ao fechar dos portões. E o Camisa ficou sujeito às penalizações do regulamento. Houve um momento de apreensão na Avenida quando uma integrante da Velha Guarda precisou de assistência médica imediata. Até o fechamento desta matéria, a escola e os órgãos oficiais ainda não haviam emitido um boletim sobre seu estado de saúde.
ENTENDA O ENREDO
Na cosmologia iorubá, Exu é o dinamismo puro. É o mensageiro que transita entre o Orum (espiritual) e o Aiê (material), o senhor das passagens que detém as chaves da comunicação e da negociação. Ele é o movimento que permite a vida. A proposta do carnavalesco Guilherme Estevão nasce de uma urgência histórica: reposicionar Exu no imaginário brasileiro. Mais do que um enredo, foi um ato de justiça ancestral.
O orixá enfrenta séculos de distorção e “terror religioso”. Exu foi devolvido ao seu lugar de direito: o guardião das ruas, dos mercados e do encontro humano. Nesse palco, a Barra Funda surge como o território sagrado — um reduto moldado pela resistência negra e pelo samba, onde a vida se reinventa em cada encruzilhada urbana.
Para o Camisa Verde e Branco, o desfile não terminou no fechamento dos portões. Ele ecoa agora na apreensão de uma apuração onde cada décimo perdido pesará como uma pedra no caminho. O drama do relógio é apenas a ponta do iceberg de um ciclo marcado por turbulências: o Trevo da Barra Funda chegou à avenida após meses de batalhas judiciais e incertezas institucionais que testaram a alma do pavilhão.
O sol nasceu sobre o Anhembi, mas a terça-feira de apuração paira como uma encruzilhada decisiva para a sobrevivência de uma das escolas de samba que é o coração de São Paulo.
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