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As Bruxas da Colorado do Brás: Reparando a História no Anhembi

Colorado do Brás “incendeia” o Anhembi com manifesto sobre o saber feminino

A Colorado do Brás transformou o Sambódromo do Anhembi em território de reparação histórica ao realizar o segundo desfile da noite desta sexta-feira (13).

por Josy Dinorah
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Com o enredo “A Bruxa está solta! Senhoras do saber renascem na Colorado”, o carnavalesco David Eslavick propôs uma virada de chave: retirar do termo “bruxa” o peso da condenação e devolvê-lo ao campo da autonomia, da inteligência e da transmissão de conhecimento.

A imagem do fogo, que em outros tempos significou punição, apareceu como energia de renascimento. Mais do que reconstruir um período histórico, a escola apresentou uma leitura contemporânea sobre quem tem o direito de produzir saber. Com uma Comissão de Frente composta por homens com a indumentária da ‘bruxa’, traz o masculino experimentando o espelhamento do peso do estigma da perseguição. 

Entre os momentos de maior comunicação com o público, esteve a participação de Nany People. Sua presença sintetizou a ideia de resistência pela afirmação da identidade. Um percurso de vida que dialoga diretamente com a proposta da agremiação de transformar estigma em potência. Também ganhou destaque a atriz Fabi Bang, evocando a dimensão da ciência e da sensibilidade feminina como continuidade de um legado que a história oficial tentou apagar.

Ao ocupar a avenida com essas imagens, a Colorado mostrou maturidade ao tratar o Carnaval como espaço legítimo de debate público, conectando passado e presente em uma narrativa que ultrapassa a fantasia.

ENTENDA O ENREDO

A proposta partiu da revisão histórica das mulheres que foram rotuladas como bruxas durante períodos de perseguição religiosa na Europa. Muitas delas eram parteiras, curandeiras, estudiosas das ervas e observadoras dos ciclos da natureza, funções que lhes conferiam autonomia e influência social. Um medo dessa independência ajudou a transformar conhecimento em crime. A acusação de feitiçaria foi, portanto, um mecanismo de controle sobre corpos e vozes femininas.

No desfile, a Colorado defendeu que nem o fogo foi capaz de eliminar esse patrimônio cultural. Ele atravessou gerações, preservado por benzedeiras, raizeiras e mulheres que mantiveram práticas de cuidado mesmo diante da repressão. Ao trazer essa herança para o presente, a narrativa reposicionou a figura da bruxa em cientistas, artistas e lideranças atuais. A mensagem foi direta: a autonomia feminina continua sendo um campo de disputa, e reconhecer esse percurso é parte fundamental da construção de futuros mais justos.

Mais do que recuperar personagens do passado, a escola sugeriu uma pergunta ao público de hoje: quem ainda se incomoda com mulheres que sabem demais?

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