Foto Capa: Dayse Pacífico
A Estrela do Terceiro Milênio entrou no Sambódromo do Anhembi como quem afina instrumentos antes do primeiro acorde. Não houve atropelo. Não houve dúvida. Houve método, ensaio e sentimento com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”.
Quinta escola da madrugada deste domingo (15), o Grajaú apresentou um desfile que tratou o tempo como aliado. Com a assinatura de Murilo Lobo, a narrativa foi organizada como páginas abertas de um livro que se deixou ler devagar na avenida.
A dupla Grazzi Brasil e Darlan Alves conduziu o samba com interpretação limpa, sustentada pela pulsação exata da bateria ‘Pegada da Coruja’ do Mestre Vitor Veloso. As paradinhas não foram truques; foram respiros. E nesses respiros, a arquibancada cantou poesia.
A Comissão de Frente de Régis Santos sintetizou o espírito do projeto. Livros se abriam, memórias saltavam, personagens ganhavam vida. A imagem do jovem compositor diante da escrivaninha encontrou, a poucos metros, o próprio Paulo César Pinheiro assistindo e a emoção rompe qualquer fronteira entre ficção e realidade.
ENTENDA O ENREDO
Com mais de duas mil composições gravadas, Paulo César Pinheiro é um dos arquitetos da canção brasileira. Sua obra atravessa o amor, a fé, o trabalho, a negritude e o cotidiano, transformando vida comum em permanência.
O desfile destacou a formação artística no Teatro Opinião, espaço fundamental da resistência cultural durante a ditadura, e as parcerias que ajudaram a moldar uma consciência musical comprometida com o país do povo.
Entre todas, nenhuma parceria é mais simbólica que a construída com Clara Nunes. Ao lado dela, Paulo ajudou a consolidar uma estética que aproximou o grande público das matrizes afro-brasileiras, da religiosidade e da dignidade do povo. No tribunal da música brasileira, a voz de Clara Nunes não é estatística de vendas. É a tradução mais fiel do que chamamos de brasilidade. Ela não apenas cantava; ela parava o mar.
Se houve um segredo na apresentação da Estrela do Terceiro Milênio, ele mora na palavra pertencimento. A escola do Grajaú aprendeu a transformar distância em força. Vem da borda da cidade, mas desfila como centro de si mesma. Cada ala carrega o orgulho de quem sabe por que está ali. A Milênio tem uma comunidade que não abandona, que canta junto. E talvez seja isso que explique a segurança quase serena com que o desfile aconteceu.
No Anhembi, a Coruja provou que o samba é o “quintal do mundo” não apenas desfilando técnica, mas celebrando o casamento entre a palavra de Paulo e a voz eterna de Clara, deixando na Avenida a certeza de que, enquanto houver um surdo batendo, o mar de Minas continuará a serenar. Afinal, no tribunal da música brasileira, a voz de Clara Nunes não é apenas uma estatística de vendas, mas a tradução mais fiel do que chamamos de “brasilidade”. Ela não apenas cantava, ela parava o mar.
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