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Gaviões da Fiel desfilando no Sambódromo do Anhembi no Carnaval 2026 com o enredo Vozes Ancestrais Para Um Novo Amanhã

A Ascensão da Fiel no Voo da Ancestralidade

Vice em décimos, gigante em memória: a ascensão da Gaviões nasce da ancestralidade de uma escola que aprendeu na arquibancada que permanecer também é vencer.

por Josy Dinorah
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Foto Capa: Nelson Gariba

O Carnaval de 2026 da Escola de Samba Gaviões da Fiel não será lembrado apenas pelos 269,7 pontos que garantiram à agremiação o vice-campeonato do Grupo Especial. Será lembrado pelo que esse número representa: maturidade, reconstrução e a consolidação de um projeto que deixou de ser promessa para se tornar afirmação. A diferença de um décimo para a campeã, a Mocidade Alegre, revela o nível de excelência que a Gaviões voltou a atingir nos desfiles.

Com o enredo “Vozes Ancestrais Para Um Novo Amanhã”, a Gaviões não apenas desfilou. Executou. Houve rigor técnico, segurança estética e, principalmente, coerência. Samba-Enredo, Enredo, Harmonia e Fantasia receberam nota máxima de todos os jurados. Não houve susto em Evolução. Não houve punições administrativas. O que se viu foi uma escola organizada, concentrada e consciente de cada detalhe que atravessava a avenida.

O título escapou no quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Um décimo. Mas o que ficou na memória coletiva do Anhembi não foi a subtração matemática, mas sim a sensação de solidez de uma escola de samba que está sempre entre as favoritas ao título. A Gaviões voltou a desfilar como protagonista, e isso não se mede apenas na planilha.

A trajetória recente confirma que não houve acaso. Em 2024, o quarto lugar marcou o retorno ao Desfile das Campeãs. Em 2025, veio o terceiro posto. Agora, o vice-campeonato. A curva é ascendente e consistente, resultado de uma escola que aprendeu com seus próprios ciclos. Depois do bicampeonato de 2002 e 2003, vieram períodos de reestruturação, passagens pelo Grupo de Acesso e ajustes internos que exigiram mais resistência do que aplauso. A reconstrução foi silenciosa, se é que podemos dizer que a Gaviões da Fiel é silêncio!

Há algo simbólico no enredo escolhido para selar esse momento. A ancestralidade evocada na avenida parecia apontar não apenas para o passado, mas para o entendimento de identidade. Para construir um novo amanhã, foi preciso reafirmar fundamentos: técnica, disciplina e pertencimento. Não se tratava de nostalgia, mas de consciência histórica.

Fortemente ligada ao Sport Club Corinthians Paulista, a Gaviões carrega um traço cultural que vai além do samba. A torcida do Corinthians se consolidou como “Fiel” não apenas pelas conquistas, mas pela permanência nos períodos de escassez de títulos, como no emblemático jejum entre 1954 e 1977. A presença sempre foi mais definidora do que ser campeã ou a vitória na partida. E a escola reproduz essa lógica no Anhembi, que funciona como seu estádio simbólico: se a vitória vem, celebra-se; se não vem, reafirma-se a ocupação do território.

Ao fim do desfile oficial, no dia na madrugada de sábado (14/02) para domingo (15/02), o carnavalesco Rayner Pereira falou à Sintonia de Bambas com a respiração ainda acelerada de quem tinha acabado de atravessar um ano inteiro em pouco mais de uma hora:

“Esse grito a gente queria soltar já faz um tempo. Trabalhamos muito para isso. O resultado mostra o tamanho da escola e o significado do enredo. Estamos desde março pesquisando e viajando para trazer o máximo em uma hora e cinco minutos. Acredito que tudo deu certo. Foi bom porque foi bom.” – afirmou o Carnavalesco que junto de Julio Poloni entregou um excelente trabalho. E talvez seja na simplicidade da frase ao final de um desfile muito elogiado, que talvez esteja a síntese do vice campeonato da Gaviões da Fiel. Não foi sobre estatística. Foi sobre entrega.

A Gaviões desfila nas campeãs ainda maior, porque recuperou o controle sobre sua própria narrativa. O vice-campeonato decidido no detalhe foi a confirmação de que a escola voltou a competir no mais alto nível. Com método, identidade e convicção da certeza que a agremiação voltou a ser quem sempre foi. E isso, para a Fiel, desfilar entre as campeãs é uma vitória que não cabe em décimos.

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