Foto Capa: Dayse Pacífico
A Império de Casa Verde abriu a segunda noite do Grupo Especial neste sábado (14) lembrando ao Anhembi por que o luxo, ali, nunca é gratuito. É linguagem, é identidade e, desta vez, virou também argumento histórico.
Com o enredo “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Barboza, a escola apresentou um desfile de impacto visual grandioso, mas ancorado em pesquisa e em uma pergunta central: quem sempre encontrou formas de produzir liberdade mesmo quando tudo era negação?
A resposta veio nas alas, nas alegorias e principalmente no canto. A estreia da dupla Tinga e Tiago Nascimento deu fôlego à narrativa e sustentou um samba que precisava atravessar alegorias grandiosas sem perder comunicação com a arquibancada.
À frente da bateria Barcelona do Samba, Mestre Zoinho conduziu uma evolução segura, enquanto Theba Pitylla imprimiu presença cênica em sintonia com o peso ritual do enredo. Mas houve um momento em que o desfile deixou de ser apenas plástico para se tornar íntimo.
A homenagem à baluarte Dona Lea, falecida no fim de janeiro, atravessou a comunidade. Durante o desfile, integrantes da agremiação e membros da Velha Guarda demonstraram respeito solene, reforçando a ancestralidade e a força feminino, um dos pilares do enredo que encontraram eco direto na trajetória de Dona Lea dentro do desfile.
ENTENDA O ENREDO
O enredo “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras” propôs uma imersão profunda na história verificável das “Negras de Ganho” na Salvador setecentista. A Império iluminou a figura de Dona Fulô (Florinda Anna do Nascimento), transformando o Anhembi em uma vitrine da “estratégia do brilho”.
Ao levar essa história para o desfile, a Império mostrou que o brilho não era ornamento: era documento. Cada peça representava trabalho, estratégia, fé e mobilidade social construída no detalhe. A agremiação conectou saberes da ourivesaria africana à experiência brasileira, apresentando essas mulheres como agentes econômicas que movimentaram cidades, sustentaram famílias e inscreveram seus nomes na história muito antes de qualquer reconhecimento oficial.
Quando a comunidade canta mulheres que ergueram patrimônios em meio à violência da escravidão e, ao mesmo tempo, chora sua própria matriarca, o carnaval deixa de ser representação do passado e vira continuidade. A avenida entende que memória não é saudade, é celebração. Entre ouro, lágrimas e aplausos, a comunidade do Tigre Guerreiro mostrou que o luxo pode ser linguagem de luta. E que resistência, quando atravessa gerações, também aprende a desfilar.
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