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Mocidade Alegre 2026: A Eternidade de Léa Garcia no Anhembi

Mocidade Alegre coroou a “Deusa Negra” Léa Garcia

Em desfile de força simbólica e alto rigor técnico, a Morada do Samba transforma a trajetória da atriz em rito de consagração e cruza o tempo limite no limite do fôlego.

por Josy Dinorah
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Foto Capa: Felipe Araújo/LigaSP

A Mocidade Alegre entrou na Avenida na madrugada deste domingo(15) com a segurança de quem sabe o tamanho da responsabilidade que carrega quando escolhe falar de memória. Não se tratava apenas de homenagear uma artista fundamental da cultura brasileira. A escola decidiu transformá-la em território sagrado com o enredo “Malunga Léa, Rapsódia de uma Deusa Negra”.

O enredo desenvolvido por Caio Araújo apresenta a vida de Léa Garcia como travessia, herança e permanência. O Abre-alas concentrou uma das imagens mais poderosas da noite: Thelma Assis representava a juventude da futura estrela, enquanto Fred Nicácio encarnava Abdias Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro, espaço decisivo para a formação artística e política da atriz.

Na alegoria, Abdias aparecia representado como Exu, abrindo caminhos. Ao redor, serpentes remetiam a Oxumarê, desenhando a ideia de continuidade, ciclo e renovação. Era a tradução visual de uma tese clara: não existe carreira individual quando se fala em arte negra no Brasil, existe construção coletiva.

A bateria Ritmo Puro ofereceu sustentação firme para que a comunidade cantasse com intensidade do início ao fim. Mas o espetáculo também teve tensão. Nos minutos finais, a escola precisou ajustar o andamento para garantir o encerramento dentro do tempo de desfile na Avenida. A travessia simbólica virou corrida real. E o fechar das cortinas foi coroado com o tempo ideal.

ENTENDA O ENREDO

Nascida no Rio de Janeiro, em 1933, Léa Garcia tornou-se uma das artistas mais respeitadas da cultura brasileira. Revelada pelo Teatro Experimental do Negro, abriu caminhos em um período em que atores negros eram confinados a personagens subalternos. Sua presença em cena redesenhou possibilidades e inaugurou futuros.

A dimensão mítica evocada pela Morada do Samba ganha contornos ainda mais profundos por um dado que parece escrito pela própria dramaturgia do destino. Léa partiu em 2023, enquanto era homenageada no Festival de Cinema de Gramado. Morreu em celebração, dentro da arte, cercada pelo reconhecimento de uma vida inteira dedicada a abrir portas.

O conceito de “Malunga”, utilizado pela escola, recupera a palavra de origem banto que nomeava companheiros que atravessavam o oceano nos navios negreiros. Na leitura do enredo, Léa é essa irmã de jornada: alguém que carrega a dor coletiva, mas também a capacidade de reinventar o futuro por meio da arte.

Ao transformar Léa Garcia em entidade de inspiração, a Mocidade Alegre não falou apenas do passado. Falou sobre quais corpos podem sonhar grande hoje. Falou sobre permanência. Falou sobre futuro.

E talvez por isso tenha sido tão simbólico ver a Morada do Samba correr contra o relógio. Porque a história da população negra no Brasil sempre foi também essa disputa: fazer caber, no tempo possível, uma grandeza que nunca coube nos limites impostos. Na Avenida, Léa virou eternidade. Mesmo quando os minutos insistiam em acabar.

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