Foto Capa: Jimmy Santos
O Morro da Casa Verde entrou no Anhembi com a convicção de quem reconhece a vida como território de enfrentamento. Com o enredo “Santo Antônio de Batalha, faz de mim batalhador”, assinado pelo carnavalesco Ulisses Bara, a Verde e Rosa da Zona Norte transformou a passarela em um espaço onde fé e sobrevivência caminharam lado a lado. Para a comunidade do Morro, acreditar é também resistir.
A narrativa do desfile deslocou o sagrado do campo abstrato para o cotidiano. A escola apresentou um Santo Antônio que não apenas protege, mas luta. Essa leitura dialoga com a experiência das comunidades periféricas, onde a espiritualidade funciona como ferramenta de sustentação.
No centro dessa construção, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, João Lucas e Juliana Souza, realizou uma apresentação de alto nível técnico. O bailado preciso traduziu a proposta do enredo: tradição como guia e disciplina como forma de respeito à própria história da agremiação.
ENTENDA O ENREDO
Fernando de Bulhões, o Santo Antônio, ganhou no Brasil uma dimensão particular. Durante o período colonial, ele foi oficialmente “alistado” no Exército, chegando ao posto de Tenente-Coronel. Simultaneamente, nas camadas populares e entre os povos negros, essa figura guerreira foi reinterpretada, passando a dialogar com a energia de Ogum, orixá do ferro e do trabalho.
Esse sincretismo não foi casual, mas uma estratégia de sobrevivência espiritual diante da colonização. O Morro encerrou sua passagem pelo Anhembi reafirmando um princípio da cultura popular: a fé que sustenta o povo não promete fuga, mas coragem. Para quem vive em constante batalha, o desfile da Morro da Casa Verde no Carnaval 2026 provou que o samba é, acima de tudo, uma estratégia de vida.
Facebook comentário