Home Carnaval SPGaviões da Fiel fez do Anhembi um território indígena
Gaviões da Fiel 2026: A Amazônia Yanomami em Preto e Branco

Gaviões da Fiel fez do Anhembi um território indígena

Com estética de floresta em preto e branco, a escola alia a cosmologia Yanomami ao debate político e leva representantes dos povos originários para o centro da narrativa.

por Josy Dinorah
1 visualização

Foto capa: Woody Henrique/LigaSP

A Gaviões da Fiel entrou no Sambódromo do Anhembi na madrugada deste domingo (15) reafirmando uma fase de maturidade estética e segurança técnica. A dupla de carnavalescos Rayner Pereira e Júlio Poloni encarou um desafio que parecia impossível: falar de floresta sem abandonar o preto e branco que sustenta a identidade da torcida ao falar do enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”.

O resultado foi uma Amazônia construída em texturas de palha, barro e muito azul. Nada de verde óbvio. A sofisticação veio da escolha dos materiais, da iluminação e da forma como a escola decidiu propor reflexão em vez de paisagem.

A Comissão de Frente, assinada por Helena Figueira, abriu caminhos espirituais para a narrativa. Em cena, guardiões, ritos e gestos que evocavam proteção do território e respeito aos saberes antigos.

Um dos pontos altos foi o diálogo com o Boi Caprichoso. A presença do pajé Erick Beltrão e das tuxauanas Ira Maragua, Jessica Maragua e Gilvana Borari trouxe legitimidade ritual ao desfile e evidenciou a ponte artística construída por Rayner e muitos profissionais do Carnaval de São Paulo a partir da cultura do Norte.

À frente dos ritmistas, Sabrina Sato surgiu como a Flor da Floresta, metáfora da vida que resiste mesmo quando tudo ao redor é ameaça. A imagem funcionou como elo entre a bateria e o público, traduzindo em emoção a tese apresentada pelas alegorias.

Comandada por Mestre Ciro Castilho, a Ritimão sustentou o canto conduzido por Ernesto Teixeira, enquanto o casal Carolline Barbosa e Wagner Lima apresentou uma dança segura, pensada para buscar as notas mais altas. A escola evoluiu com fluidez e terminou o desfile com a sensação de dever cumprido e um gostinho de grito de ‘É campeã!”.

ENTENDA O ENREDO

A proposta da Gaviões partiu da cosmologia Yanomami para discutir o presente. O fio narrativo foi a Yãkoana, o pó sagrado que permite contato com o mundo espiritual e amplia a percepção sobre a vida e a responsabilidade coletiva.

A partir daí, o desfile trouxe para o centro da conversa a ideia de “segurar o céu”, pensamento difundido pelo líder indígena Davi Kopenawa. A mensagem é direta: quando a humanidade rompe o equilíbrio com a natureza, o mundo desaba para todos.

Essa reflexão ganhou contorno político explícito com a presença da ministra Sônia Guajajara na Avenida. A escola transformou o espetáculo em posicionamento, criticando o Marco Temporal e defendendo o direito originário às terras. O que a Gaviões fez foi lembrar que desfile também é documento do tempo em que acontece.

A ausência da cor tradicional não é apenas um fator de rivalidade entre torcidas, mas denúncia: é o retrato de uma natureza ferida pelas queimadas, pela mineração predatória e pela pressa de um progresso que consome antes de ouvir. Quando representantes indígenas ocupam o centro da narrativa, o Carnaval deixa de falar sobre e passa a falar com. E isso muda tudo.

Compartilhar isso:

Facebook comentário

Deixe um comentário

Você pode gostar