Foto capa: Woody Henrique/LigaSP
A Gaviões da Fiel entrou no Sambódromo do Anhembi na madrugada deste domingo (15) reafirmando uma fase de maturidade estética e segurança técnica. A dupla de carnavalescos Rayner Pereira e Júlio Poloni encarou um desafio que parecia impossível: falar de floresta sem abandonar o preto e branco que sustenta a identidade da torcida ao falar do enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”.
O resultado foi uma Amazônia construída em texturas de palha, barro e muito azul. Nada de verde óbvio. A sofisticação veio da escolha dos materiais, da iluminação e da forma como a escola decidiu propor reflexão em vez de paisagem.
A Comissão de Frente, assinada por Helena Figueira, abriu caminhos espirituais para a narrativa. Em cena, guardiões, ritos e gestos que evocavam proteção do território e respeito aos saberes antigos.
Um dos pontos altos foi o diálogo com o Boi Caprichoso. A presença do pajé Erick Beltrão e das tuxauanas Ira Maragua, Jessica Maragua e Gilvana Borari trouxe legitimidade ritual ao desfile e evidenciou a ponte artística construída por Rayner e muitos profissionais do Carnaval de São Paulo a partir da cultura do Norte.
À frente dos ritmistas, Sabrina Sato surgiu como a Flor da Floresta, metáfora da vida que resiste mesmo quando tudo ao redor é ameaça. A imagem funcionou como elo entre a bateria e o público, traduzindo em emoção a tese apresentada pelas alegorias.
Comandada por Mestre Ciro Castilho, a Ritimão sustentou o canto conduzido por Ernesto Teixeira, enquanto o casal Carolline Barbosa e Wagner Lima apresentou uma dança segura, pensada para buscar as notas mais altas. A escola evoluiu com fluidez e terminou o desfile com a sensação de dever cumprido e um gostinho de grito de ‘É campeã!”.
ENTENDA O ENREDO
A proposta da Gaviões partiu da cosmologia Yanomami para discutir o presente. O fio narrativo foi a Yãkoana, o pó sagrado que permite contato com o mundo espiritual e amplia a percepção sobre a vida e a responsabilidade coletiva.
A partir daí, o desfile trouxe para o centro da conversa a ideia de “segurar o céu”, pensamento difundido pelo líder indígena Davi Kopenawa. A mensagem é direta: quando a humanidade rompe o equilíbrio com a natureza, o mundo desaba para todos.
Essa reflexão ganhou contorno político explícito com a presença da ministra Sônia Guajajara na Avenida. A escola transformou o espetáculo em posicionamento, criticando o Marco Temporal e defendendo o direito originário às terras. O que a Gaviões fez foi lembrar que desfile também é documento do tempo em que acontece.
A ausência da cor tradicional não é apenas um fator de rivalidade entre torcidas, mas denúncia: é o retrato de uma natureza ferida pelas queimadas, pela mineração predatória e pela pressa de um progresso que consome antes de ouvir. Quando representantes indígenas ocupam o centro da narrativa, o Carnaval deixa de falar sobre e passa a falar com. E isso muda tudo.
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