Foto Capa: Dayse Pacífico
A Tom Maior entrou na Avenida na madrugada deste domingo (15) carregando um silêncio diferente. Antes mesmo do começo do desfile, a ala musical fez ecoar o grito que marcou gerações na voz de Gilsinho, intérprete que morreu em setembro do ano passado. “Alô, minha querida Tom Maior! É tudo nosso!” Era como se o desfile começasse pedindo licença ao passado para seguir.
Na avenida, o baile do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Tom Maior, Ruhanan Pontes e Ana Paula Sgarbi, foi como uma representação da psicografia de Chico Xavier. O casal, que completou 15 anos de parceria, simulou a escrita de uma mensagem vinda do além.
O enredo “Chico Xavier: Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba” do carnavalesco Flávio Campello, em vez de caricaturas religiosas, falou de território, gente e formação cultural. A cidade de Uberaba apareceu não só como cenário da trajetória de Chico Xavier, mas como espaço de acolhimento, povos originários e fé compartilhada.
No plano terrestre, a Comissão de Frente, com Adriano Paketá, conhecido por sua atuação como pajé no Boi Garantido, tornou visível a ponte entre mundos. Trazido pelo coreógrafo Gandhi Tabosa, seu personagem preparava o caminho espiritual por onde a narrativa caminharia depois. A escola ainda enfrentou uma pane elétrica próxima ao recuo da bateria. Resolveu com agilidade, manteve a evolução.
ENTENDA O ENREDO
A narrativa partiu da vida de Chico Xavier e de sua atuação em Uberaba, cidade que se tornou referência de caridade e peregrinação espiritual a partir da segunda metade do século XX.
Mais do que contar a biografia do médium, o enredo buscou entender o impacto social de sua prática: atendimento aos necessitados, distribuição de recursos, escuta e consolo para grandes massas.
Quando uma escola canta alguém que partiu e consegue seguir adiante sem romper o vínculo, ela realiza sua forma mais bonita de permanência. Gilsinho esteve ali não como ausência, mas como direção. A Tom Maior não entregou apenas um retorno ao Grupo Especial. Entregou uma carta espiritual escrita com samba, técnica e memória. E deixou no ar a sensação de que certas vozes continuam conduzindo o desfile mesmo depois que o microfone silencia. A “Voz de Ouro” de Gilsinho encontrou no asfalto a imortalidade que Chico Xavier tanto psicografou.
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