Foto Capa: Dayse Pacífico/Sintonia de Bambas
O Carnaval de 2025 deixou lições profundas para a X9 Paulistana. Com um ótimo desfile, a escola da Zona Norte enfrentou dificuldades técnicas e terminou entre as últimas colocadas, resultado que a afastou da briga pelo retorno imediato ao Grupo Especial. O saldo, porém, não foi apenas de frustração: também revelou a necessidade de encontrar o “tamanho certo” do espetáculo, com mais cuidado nos detalhes e mais equilíbrio entre a plástica e a execução.

Amauri Santos – Carnavalesco (X9 Paulistana)
É com esse espírito de aprendizado que a X9 entra em 2026 trazendo um enredo de força simbólica e mensagem social: “Yvy Marã Ey: A Busca pela Terra Sem Mal”, desenvolvido pelo carnavalesco Amauri Santos, em parceria com Leonardo Daz.
O enredo mergulha na cosmovisão Guarani para propor reflexão sobre preservação ambiental, ancestralidade e convivência harmoniosa entre humanos e natureza. “Nós pegamos uma lenda indígena que fala de Yvy Marã Ey como a busca pela terra sem mal. A intenção é resgatar esses ensinamentos e trazer para os dias de hoje, para que possamos transformar nosso país numa Yvy Marã Ey. Colocando no carnaval, a gente começa com algo ancestral e termina com uma visão de futuro.” explica Amaury.
O mito de Yvy Marã Ey
Para os Guarani, Yvy Marã Ey não é um paraíso distante, mas uma forma de vida em equilíbrio, onde não existem fome, guerra ou doenças. A lenda narra que Nhanderú, o grande criador, decidiu exterminar a humanidade, poupando apenas Guirapoti, o pajé, e sua família, que respeitavam a natureza e os outros.
“Eles foram resgatados e a humanidade depois recomeça. Só que o castigo não veio de Nhanderú, e sim dos homens brancos, dos europeus que chegaram impondo sua crença, sua cultura. Porém, os povos Guarani ainda acreditam que seja possível buscar e encontrar esse lugar. Por isso, eles respeitam tanto a natureza e respeitam uns aos outros. Então, a gente quer pegar esse ensinamento e transportar para o nosso dia a dia e entender esses ensinamentos para que possamos transformar o nosso país numa Yvy Marã Ey. Esse é o nosso sonho, a contribuição da X9.” – ressalta o Carnavalesco.
O mito segue vivo na América Latina, reforçado pela tradição oral, como relata Rodrigo González, nativo paraguaio que vive no Brasil:
“Minha bisavó falava dessa terra sem mal, onde Nhanderuvuçu (O grande Pai Celestial) construiu um lugar onde hoje conhecemos como Yaguarón, que é uma cidade do Paraguai. Para chegar lá, é preciso atingir um estado de espírito muito alto chamado Aguyje, que é tipo um nirvana”. – conta Rodrigo.
Entre crítica e esperança
O enredo também propõe uma reflexão crítica sobre destruição ambiental e ataques às terras indígenas, transformando a avenida em um espaço de consciência coletiva. “No primeiro momento, a chama que ardeu e exterminou toda a humanidade foi enviada por Nhanderú. E hoje, após a chegada do homem branco, essa chama que destrói a natureza, que até hoje, cada dia é mais latente, ainda destrói não só a natureza, mas dignidade e parte da cultura. Porém, não destrói sonhos. Por isso que nós tentamos trazer esses ensinamentos para os dias de hoje, para que cada um de nós possamos ter consciência melhor de cuidar da natureza e um dos outros.” – relata Amaury
O samba-enredo: a voz do povo que guia a história
No Carnaval, o samba-enredo não é apenas música; é a narrativa que conduz o desfile, articulando o enredo da escola para o público, para os jurados e para quem está na arquibancada. É através dele que Amaury Santos acredita que vai traduzir os mitos e mensagens pensados para o enredo 2026 da X9 Paulistana.
“Além da plástica, eu acho que foi um dos pedidos que nós fizemos para os compositores. E acredito que a grande maioria entendeu. Essa atmosfera será criada principalmente a partir do samba-enredo. Os sambas estão pedindo isso. Esse dar as mãos para a gente mudar o quadro que vivemos hoje. Além da plástica, o público verá essa união durante o desfile”, explica Amauri.
A agremiação já está em processo de escolha dos sambas para 2026 e vamos conhecer o samba campeão no dia 19 de setembro, às 19h, pelas redes sociais da X9 Paulistana.
Aprendizado e evolução
O Carnaval é, acima de tudo, uma escola em que cada desfile ensina algo à escola e ao público. Depois de 2025, Amauri Santos reconhece que a X9 Paulistana aprendeu com acertos e erros, refinando tanto a parte plástica quanto a técnica, sem perder a grandiosidade e a parte social que caracteriza a agremiação. “Cada ano a gente aprende com acertos e erros. Em 2026, buscamos um carnaval limpo, consciente e estudado. Grande, sim, mas do tamanho certo, com mais cuidado nos detalhes e com a parte técnica bem trabalhada”.
As falas de Amauri Santos para o Sintonia de Bambas mostram o quanto a X9 Paulistana está atenta e planejando cada cada detalhe do desfile para 2026. Não é apenas sobre fantasias, alegorias ou voltar ao Grupo de Acesso I : é sobre como cada elemento do enredo vai transmitir uma mensagem, sobre respeito à natureza, à cultura indígena e à convivência coletiva. Reforçando que, o Carnaval é muito mais que festa: é uma escola ao ar livre. Na avenida, alegorias, fantasias e samba criam uma narrativa que conecta acontecimentos do passado com reflexões do presente e sonhos para o futuro. Essas histórias carregam significados que fazem sentido tanto para quem cria o desfile quanto para quem ouve e canta o samba.
Apesar do tempo ser implacável, os ensinamentos do Carnaval são ressignificados e adaptados ao contexto social de cada época, mas sem perder a essência da arte e da cultura feita pelo povo, para o povo. Cada enredo reúne experiências vividas, memórias preservadas e a visão de um futuro melhor, mostrando que o Carnaval é também educação, memória e resistência cultural.
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