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A Guerreira de Oxum, e o adeus à fantasia

por Luis Mendes
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Foto Capa: Modelista e Dançarina Cintia Mello

Ela chegou em casa feliz, sua escola de samba havia sido campeã. Com um belo sorriso que só uma mulher de Oxum sabe dar, sorriu para si mesma. Não havia motivos para dividir seu sorriso com alguém. Não havia alguém! A cadência da bateria ainda mexia com seu corpo, parecia o barravento, o oró da macumba! Tirou sua fantasia e colocou num velho baú, sob sua cama, onde guarda outras fantasias dos carnavais passados. Fantasia de uma vida melhor, fantasia de ser respeitada, fantasia de não sofrer mais violência e existir! Mas a vida nesses dias difíceis virou mera alegoria que enfeita o tenebroso carro abre alas do obscurantismo que passa em nossas ruas e praças. Onde desfilam almas sombrias soltas dos porões daqueles anos que ainda não terminaram. Alas de mercenários e a velha guarda do atraso. Ela olha pela janela, a madrugada ainda não pariu o sol. Vai até o quarto das crianças que ainda dormem na fantasia de seus sonhos! De seu rosto um leve sorriso que só uma mulher de Oxum sabe dar se desprende. Ela vai até seu quarto e olha para o espelho, no reflexo vê sua cama solitária a aguardando, não há príncipe e rei. Vagarosamente limpa a maquiagem de seu rosto, fazendo mostrar um outro rosto. O sol finalmente nasce e ilumina o rosto da mulher negra! A fantasia acabou, a rainha que reinou na avenida por alguns minutos voltará à sua solidão, não terá aplausos e nem apoteose. Olhou mais uma vez as crianças e sorriu, dessa vez quem sorriu foi Oxum Opará pois ela sabe que a comissão julgadora da vida não lhe dará um dez. Ela está sozinha e a vida, nesses dias, é um campo de batalhas. É preciso lutar para viver!

Instagram luismendes5230

Twitter @LuisMen98707774

Luis Mendes é autor do livro Conversa de Encruzilhada disponível através do link https://desconcertoseditora.com.br/produto/conversa-de-encruzilhada-luis-mendes/

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