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Leci Brandão é tema de Enredo no Carnaval de Porto Alegre/RS

por Josy Dinorah
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Sempre presente nos desfiles oficiais das Escolas de Samba do eixo Rio/SP, a sambista mais uma vez será homenageada no Carnaval do País. Desta vez, como tema de Enredo de uma Agremiação de Porto Alegre/RS.

Foto Capa: Nelson Gariba / Sintonia de Bambas

A sambista e deputada estadual Leci Brandão ganha mais uma homenagem no Carnaval, e dessa vez, ultrapassando as fronteiras Rio/SP no quesito Enredo. A Escola de Samba Imperatriz Dona Leopoldina pretende levar para Avenida no RS, a trajetória artística, militante e política dessa grande figura do Samba.

Leci Brandão é carioca nascida no reduto do samba, o bairro de Madureira, que como tradição e herança colonial é o berço de Escolas de Samba que fizeram e fazem história, e nos presenteou com nomes como Jorge Ben, Arlindo Cruz, Tia Surica, dentre outros. Como artista, foi a primeira mulher a fazer parte do grupo de cantores da Mangueira e como compositora ganhou seu destaque na Agremiação. Sempre atuante em ações sociais, nas mais diversas épocas, carrega um legado de gravações e composições com tons politizados. Na política é reconhecida por seus projetos voltados para a valorização da arte e da cultura do povo negro, LGBTQIA+ e do samba.

Fundada em 1981, a Escola de Samba Imperatriz Dona Leopoldina já coleciona dois títulos no Grupo Especial com homenagens à outras duas figuras importantes no cenário do samba. O primeiro título no Grupo Especial, aconteceu em 2010, com o Enredo Beth Carvalho, a Madrinha do Samba da Leopoldina e o segundo, em 2016, com o Enredo Espelho, de Filho para Pai. A Imperatriz Canta Diogo para João (Nogueira). Para 2020,  aposta na trajetória de Leci Brandão para trazer um novo título para a Agremiação, com o Enredo “Com as bênçãos de Ogum e Iansã: A Filha da Dona Lecy! A Dama do Samba“, quem assina o Enredo da Imperatriz é o Carnavalesco Michael Smith.

Michael Smith tem passagens pela Mocidade Alegre e Dragões da Real como Mestre-Sala e consolidou sua carreira de Carnavalesco na Baixada Santista. Atualmente, dividindo seu tempo entre a Escola Mocidade Real Santista e a Escola de Samba Imperatriz Dona Leopoldina de Porto Alegre/RS, ele conversou com o Site Sintonia de Bambas sobre os desafios e os detalhes de como esta homenagem dará maior visibilidade ao Carnaval em outras partes do País.

Você construiu toda uma carreira e história em SP e logo no Litoral. O que te levou a dar este salto ao lado sul do País?

Antes de tudo gosto muito de ressaltar que eu amo Carnaval. Iniciei minha trajetória como Mestre Sala, em Mauá/SP em 1996, e em 1997, integrei a Mocidade Alegre onde fique até 2006, quando resolvi sair para ter um foco maior na minha faculdade. Em seguida, veio o convite para ingressar na Dragões da Real como primeiro Mestre Sala, onde permaneci de 2007 até 2009. Desfilei no Rio e ao retornar a SP, decidi não dançar mais e ficar apenas como Coordenador e Apresentador de casais da Acadêmicos do Tucuruvi. Ocupei o cargo de 2009 até 2015, mas já havia iniciado meu ateliê com roupa especifica para Mestre Sala e Porta Bandeira e tive uma experiência de ser Carnavalesco da Escola de Samba Prova de Fogo.  Eu busco a base cultural, conhecer outras culturas e estar no Carnaval de SP, Rio, chegar a Santos/SP, e hoje, estar em Porto Alegre/RS é simplesmente apreender , estudar, conhecer culturas diferentes e me moldar a cada uma delas.

Quando falamos de Carnaval no Brasil, como mídia e conhecimento popular, é automático: Rio e depois SP. Conta pra gente o que é? Como funciona? E a tradição do Carnaval Gaúcho?

Assim cada Estado tem sua cultura, o Rio tem seu Carnaval, SP o seu e o gaúcho também, todos eles de grandes proporções e com suas tradições. Aqui em Porto Alegre há uma questão de nomenclatura diferente: O Casal – chamamos de destaques, time de canto é harmonia, dentre outros, então aos poucos vou me adaptando. Aqui há uma cultura muito forte com as Estandartes, é diferente mais o conceito de Desfile é o mesmo, isso não muda. São nove jurados que nota a nota fazem um Carnaval disputado (risos).

O Enredo falará de uma figura importante no cenário musical e político, mas que teve seu foco no eixo Rio/SP. A Escola já foi campeã, em 2010 e 2016, com outras figuras que tradicionalmente não ocupa as origens gaúchas. Para 2020, além da expectativa do título, como será a abordagem do desfile da Imperatriz?

A proposta de Desfile da Imperatriz Dona Leopoldina é render uma homenagem aos elementos que contribuíram para a formação da musicalidade de Leci Brandão. Construir um Enredo puramente biográfico e linear não nos daria o mesmo brilho no olhar de poder buscar a essência da música cantada por nossa homenageada. A Leci canta as “coisas” que emergem do povo sejam elas culturais, religiosas ou sentimentais. Existe uma brasilidade latente, vive e pulsante em cada nota musical.

O Enredo remete a construção de narrativa afro, cheia de ancestralidade e religião, a Leci é uma mulher bastante ligada as religiões afro brasileiras. Em um Estado que deu a vitória em 407 de suas cidades ao atual governo, que faz declarações polêmicas aos mais diversos assuntos, falar da mulher negra, homossexual e de religião seria uma quebra de tabu?

A Leci tem uma trajetória política de luta intensa por todas essas questões elencadas na pergunta, logo, o Enredo é também um manifesto de poder à todas essas pessoas que se sentem de alguma forma perseguidas ou sofrem tentativa de silenciamento. Esta é uma mensagem que está inserida subliminarmente em cada elemento do Desfile, sem precisar depreciar a imagem, conduta ou norteamento político de ninguém, o que faremos é apenas ampliar o discurso de Leci por uma sociedade mais justa onde todos tenham seus direitos garantidos e respeitados.

Qual a contribuição do Enredo como um todo para aqueles que fazem o Carnaval do Imperatriz ou fazem parte da Comunidade e para aqueles que apreciarão e devem conhecer o desfile do Carnaval 2020 do Rio Grande do Sul?

Para todos nós que estamos envolvidos com o projeto é uma honra poder cantar e contar a trajetória de uma personalidade de tamanha grandiosidade humana e artística como Leci Brandão. A arte carnavalesca precisa ser bela aos olhos, mas, também precisa carregar uma mensagem para que as pessoas compreendam que as Escolas de Samba são elos poderosos entre a arte e o povo. Que cada elemento ao desfilar não é colocado ali de forma gratuita, é tudo pensado, debatido e realizado pensando em transmitir conhecimento ao grande público.

Tenho certeza que toda comunidade da Dona Leopoldina e o povo gaúcho ganham a oportunidade de conhecer melhor a história de um ser humano incrível chamado Leci Brandão. É uma mulher de fibra, audaciosa e que nunca se afastou das suas raízes. É uma artista fantástica, sambista com toda propriedade. A Leci é o retrato da mulher brasileira que consegue ser muitas em uma, faltarão sempre palavras pra definir por completo. É de uma poética sublime e de uma verdade grandiosa.

E não é só o Carnavalesco que está animado em trazer a história de Leci para o povo gaúcho, Clique e confira o recado da homenageada à toda Comunidade Dona Leopoldina.

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