Foto Capa: Jimmy Santos
O samba, em sua essência mais pura, não se escreve apenas em partituras ou regulamentos; ele se transmite pelo olhar e pela voz de quem esteve no asfalto quando tudo ainda era poeira. Em uma conversa emocionante para o documentário “Memórias” da Rádio Sintonia de Bambas, o baluarte Arnaldo Guedes abriu o baú de recordações para lembrar que, antes de ser o espetáculo de milhões, o Carnaval é, acima de tudo, uma escola de vida.
Um Mapa do Samba em São Paulo
A trajetória de Arnaldo Guedes é um roteiro geográfico da resistência cultural paulistana. Começou em 1963, na histórica Unidos do Morro da Vila Maria, onde viveu o bailado sutil de mestre-sala. De lá, sua jornada atravessou fronteiras: passou por Rio Claro, fundou a Primeira do Itaim Paulista. Onde o som de seu apito de prata regeu baterias memoráveis e emprestou sua técnica à Rosas de Ouro, Mocidade Alegre e Camisa Verde e Branco.
Guedes não é apenas um espectador da história; ele ajudou a erguer os pilares de pavilhões que hoje são gigantes. Sua passagem pela Império de Casa Verde, sob a gestão de Sidnei Carriuolo, é lembrada por ele com o carinho de quem lapidou um diamante até vê-lo brilhar no Grupo Especial.
O Carnaval Atual
Durante a entrevista, Arnaldo reflete sobre as transformações da festa. Com a sabedoria de quem já viu muitas quartas-feiras de cinzas, ele defende um Carnaval que equilibre a perfeição técnica com a alegria genuína do sambista. Para ele, o diálogo com uma das gestões da Liga-SP foi o primeiro passo para garantir que a modernidade não apague o brilho do “samba no pé”.
“Nós buscamos preservar aquele chão de antigamente, a alegria espontânea de quem desfila por amor. O presidente Sidnei compreendeu que, por mais que a coreografia seja importante para o espetáculo, a alma da escola está na liberdade do sambista em se expressar”, pontuou Arnaldo, com a serenidade de quem busca pontes, não muros.
“Os Griôs”: A Guarda da Sabedoria
O ponto alto da entrevista é a apresentação do conceito de “Os Griôs”. Arnaldo Guedes se vê, junto a companheiros como Mercadoria e Landão, como um detentor de histórias que não podem se perder no tempo. A criação do Departamento das Velhas Guardas na Liga-SP surge, assim, como um porto seguro para os veteranos.
Hoje, o projeto “Samba de Primeira” não é apenas um evento social; é um rito de passagem. É onde o jovem ritmista encontra o mestre que fundou a escola, onde o luxo do camarote se curva à história dos baluartes.
A Verdade que o Tempo Lapidou
Para Arnaldo, o papel de veículos como a Sintonia de Bambas é fundamental no combate à superficialidade. Ele alerta para a importância de se ouvir as fontes reais em vez de se basear apenas em fragmentos digitais. O samba, para o clã Guedes, que estende seu legado através de seus filhos mestres-salas e de sua esposa, diretora de baianas é uma herança viva.
Ao encerrar seu depoimento, Arnaldo Guedes não deixa apenas fatos, mas uma lição: a de que o Carnaval de 2026 só é grandioso porque houve um 1963. Ele é o fio condutor que garante que o tambor continue batendo, com o respeito que o passado exige e a esperança que o futuro merece.




















