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Carnavalesco da Mocidade Alegre fala sobre Clementina de Jesus

por Josy Dinorah
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Com o Enredo “Quelémentina cadê você?”, a Morada do Samba promete mais um Carnaval centrado nas heranças culturais, sobretudo a africana, e conta mais uma vez a força de uma grande mulher , Clementina de Jesus, que tanto contribuiu para a cultura brasileira.

Capa : Divulgação

As rotinas de preparação para o Carnaval estão diante de uma agenda apertada e incerta, frente à situação da Pandemia ocasionada pelo Coronavírus. Os dias de desfile do Grupo Especial poderão acontecer entre maio e julho do próximo ano por medidas de prevenção sanitária. Mas os trabalhos nas Escolas de Samba continuam, e muitas delas já definiram seu Enredos e Sambas para 2021.

A Escola de Samba Mocidade Alegre será a responsável por trazer para a Avenida toda a oralidade e força de umas das maiores personalidades negras do mundo do samba, Clementina de Jesus da Silva, mais conhecida como Quelé. A promessa é trazer para o Anhembi a identidade e ancestralidade afro-brasileira que influenciou toda a produção artística da cantora .

Por seu valor histórico e cultural é considerada por diversos críticos e especialistas, uma tradicional representante da cultura afro-brasileira, principalmente pelo legado africano recebido em sua infância, e que visivelmente percebesse em suas obras . Clementina foi, e ainda é, uma importante figura para o Mundo do Samba, apesar do pouco reconhecimento dado pela mídia tradicional.

A história de Quelé no mundo da música começa tardiamente, aos 63 anos, quando descoberta pelo compositor Herminio Bello de Carvalho, nas festividades da periferia do Rio de Janeiro. Com sua voz marcante e suas letras ricas de memória afetiva do povo negro, ela nos presenteou com belos sambas raízes e partidos altos que faz parte do repertório de qualquer boa roda de samba.

A aposta da Morada do Samba para ganhar o título no Carnaval 2021 é trazer para a Avenida, as músicas com elementos religiosos, cantos afro ou apenas “coisinhas gostosas” que vão nos levar às memórias de infância de Quelé e seu talento ao longo da sua carreira. O Carnavalesco Edson Pereira concedeu uma entrevista ao site Sintonia de Bambas, onde conta o que veremos no Desfile da Agremiação.

SINTONIA DE BAMBAS: A Mocidade Alegre possui a característica de trazer a emoção e a alegria aflorada em seus Enredos, em grande maioria, enraizados na cultura ancestral e religiosa. Você disse que o Enredo 2021 é para dar continuidade ao “Do Canto das Yabás, Renasce Uma Nova Morada”, podemos interpretar que a mensagem em torno de uma mulher negra, descendente de negros escravizados, moradora do morro, empregada doméstica, e que, tardiamente mostrou seu talento é para perpetuar a valorização da cultura, visão de mundo e o elo com nossos antepassados?

EDSON PEREIRA: O Enredo sobre Clementina é uma fonte de resistência, inspiração, respeito e valorização da cultura negra. Não apenas pretendemos dar enfoque historiográfico, mas, principalmente, simbólico e assertivo, ou seja, de resgate, resistência, existência e valorização. Como você bem disse, Clementina era uma mulher negra, pobre, periférica, descendente de escravizadas e escravizados. Não é só o elo com nossas antepassadas e antepassados que queremos trazer à baila no Anhembi, mas as forças, resistências e existências delas e deles, que vivem aqui e agora.

SINTONIA DE BAMBAS: Atualmente, pensar em identidade negra é um processo de estrema importância e ascensão social no chamado “lugar de fala”. Considerando que a identidade é algo socialmente construída, você acredita que Enredos que resgatam a cultura popular brasileira podem auxiliar as futuras gerações a pensar sobre respeito e tolerância às diferenças étnicas e religiosas, em especial de origem afro?

EDSON PEREIRA: Identidades, quaisquer que sejam, são sempre social e simbolicamente construídas. E nessa construção, lutas sobre a proeminência de certos discursos estão sempre presentes. Carnaval e enredos passam uma mensagem. Um Enredo sobre Clementina é um Enredo sobre cultura negra. Sobre cultura popular. Sobre a força das mulheres que construíram o Brasil. É um Enredo que denuncia o machismo. Que denuncia o racismo. É um Enredo que não apenas mostra o respeito e a tolerância, mas que mostra a ação e o protagonismo da mulher negra. Atingir essa mensagem com o Carnaval é o que pretendemos.

SINTONIA DE BAMBAS: Se fizermos uma breve reflexão e busca no meio midiático e comercial do entretenimento perceberemos que o samba da Clementina não era, e infelizmente, não tem o devido valor que deveria , assim como boa parte da cultura originária do legado africano. Através da diáspora essa cultura, que foi transmitida de forma oral, sofreu dificuldades para uma solidificação documental. Você considera que o Carnaval é um combustível para não deixarmos a memória afetiva e os conhecimentos caírem no apagamento histórico?

EDSON PEREIRA: Carnaval é fonte de conhecimentos. Carnaval e a Cultura Popular são bens preciosíssimos que devem ser resguardados e defendidos sempre. Carnaval ensina. Carnaval preserva. Carnaval é vida em ação, ritual, alegria, festa e, também, resistência, afirmação e a cultura brasileira pulsando e pulsante. Carnaval é história viva e, nesse sentido, vivemos nele, com ele e por ele. 

SINTONIA DE BAMBAS: Com a Pandemia, como a Morada do Samba está se preparando para o Carnaval 2021?

EDSON PEREIRA: Nesse momento de extrema dificuldade social e de crise na saúde, a preocupação da Mocidade Alegre, minha e da minha equipe está na conservação da saúde e da dignidade dos trabalhadores do Carnaval. Esse é o nosso foco atual. Dito isso, e garantindo-se essa segurança, pretendemos fazer um Carnaval que esteja à altura da grandeza e genialidade de Clementina. A mensagem do Enredo será clara: vamos ver a grande rainha negra passar com a Morada do Samba.

SINTONIA DE BAMBAS: Pensar nos diversos ritmos musicais ou comentar sobre o Carnaval é remeter às heranças culturais africanas e sua alegria nas danças e batuques. Porém, não podemos esquecer que muitas dessas expressões representam a resistência de um Povo que foi submetido às mais diversas barbáries, pressões psicologias, separação de famílias inteiras, violências físicas e o impedimento de praticar sua cultura. Podemos esperar esse lado mais crítico no Desfile da Mocidade em 2021?

EDSON PEREIRA: Impossível fazer um enredo sobre Clementina sem colocar dedos em feridas. É um enredo que quer mostrar, com a emoção característica da Mocidade Alegre, a força e o brilho de Quelé, que se impôs contra todas as adversidades da vida. É um enredo sobre a força negra, da mulher negra. É um enredo Voz de Navalha.

SINTONIA DE BAMBAS: Como resumir o Enredo “Quelémentina cadê você?”?

EDSON PEREIRA: Clementina é a força da mulher negra. Clementina é um grito grave pela existência. Clementina é negra, é mulher, é periférica, é gigante, é rainha.

Clementina faleceu em 1987, aos 83 anos. Deixou 13 LP’s e até uma obra biográfica escrita em 2017 por Janaína Marquesini, Luana Costa, Raquel Munhoz e Felipe Castro: “Quelé, a voz da cor: Biografia de Clementina de Jesus”.

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