Home CrônicaRua do Samba vira nome oficial e reacende debate sobre a memória do samba em São Paulo
Público acompanha e aplaude cerimônia uma Roda de Samba, em São Paulo.

Rua do Samba vira nome oficial e reacende debate sobre a memória do samba em São Paulo

A antiga Rua João de Barros passa a se chamar oficialmente Rua do Samba da Barra Funda. A mudança reconhece uma história construída pela comunidade desde 1982 e acontece num momento em que outros espaços importantes para a memória do samba paulistano desaparecem ou lutam para sobreviver.

por Josy Dinorah
1 visualização

Foto Capa: Gaby Dias – Sintonia de Bambas

Durante mais de quatro décadas, a comunidade da Barra Funda chamou de Rua do Samba um trecho da antiga Rua João de Barros. O nome nasceu em 1982, a partir de um projeto idealizado por Carlos Alberto Tobias, o Tuba, e atravessou gerações até chegar aos documentos oficiais. Agora, a cidade passa a reconhecer um endereço que já fazia parte da geografia afetiva do samba paulistano.

A oficialização foi celebrada no último domingo (26), com roda de samba, apresentações da Batucada Família Tradição e a presença de moradores, sambistas e integrantes da Camisa Verde e Branco. A nova placa representa uma conquista construída pela própria comunidade, que há anos defendia o reconhecimento daquele espaço.

Uma rua que ganhou nome antes da placa

Quem passa hoje pela Rua do Samba talvez imagine que o nome sempre esteve ali. Não esteve.

Em 1982, Tuba criou um projeto cultural chamado Rua do Samba para reunir sambistas naquele trecho da Barra Funda. O evento cresceu, a comunidade incorporou o nome e, com o tempo, a antiga Rua João de Barros passou a ser conhecida dessa forma por quem frequentava o local.

Foi um daqueles casos em que o uso popular falou mais alto que o registro oficial.

Ao longo dos anos, a rua recebeu sambistas de diferentes gerações e se consolidou como um dos pontos de encontro mais conhecidos do samba paulistano.

Uma conquista que nasceu da comunidade

O reconhecimento oficial não aconteceu por acaso.

A mobilização envolveu a Associação de Sambistas, Terreiros e Comunidades do Samba de São Paulo, representada por Symone Tobias, a Iniciativa Negra, por meio do projeto Cartografias de Bamba, o coletivo Samburbano e o tradicional Bar do Chagas.

Além de reunir documentos e fotografias, o projeto Cartografias de Bamba ajudou a registrar uma memória que, por muito tempo, permaneceu guardada nos acervos das famílias tradicionais da Barra Funda e na lembrança de quem fez parte dessa história.

A proposta foi apresentada na Câmara Municipal pela Bancada Feminista do PSOL e resultou na lei que oficializou o novo nome.

A mudança também resolveu uma situação curiosa: São Paulo tinha duas ruas chamadas João de Barros. O ajuste organizou os registros da cidade e abriu espaço para que a Rua do Samba passasse a existir também no mapa.

Reconhecer também é preservar

A oficialização da Rua do Samba acontece poucos dias antes da demolição da sede do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, na Casa Verde, espaço que durante décadas abrigou o tradicional Samba do Cruz. A demolição aconteceu no último dia 29 de julho.

Os dois episódios têm naturezas diferentes, mas colocam em evidência uma mesma discussão: como preservar os lugares que ajudam a contar a história do samba paulistano?

Se alguns desses espaços seguem vivos graças à mobilização das comunidades, outros enfrentam o desafio de permanecer de pé em uma cidade que muda o tempo todo.

A Rua do Samba agora passa a integrar oficialmente esse mapa da memória.

A placa mudou.

O encontro de sambistas, a roda, as histórias e a memória daquele endereço já existiam muito antes dela.

Agora, a cidade apenas reconhece, oficialmente, um nome que a Barra Funda escolheu há mais de quatro décadas.

Compartilhar isso:

Facebook comentário

Deixe um comentário

Você pode gostar