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A violência silenciosa

por Redação
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Por Luis Mendes / Foto capa: Juarez Pena

Desde pequena, parecia que carregava um eruexim na mão. Na outra um monte de sonhos! Quando descia a ladeira correndo, deixava para trás uma nuvem de poeira. As pretas velhas acostumadas aos arquétipos diziam:

– Lá vem a pequena Matamba!

Menina alegre, parecia que saia raios de seus olhos. Era a alegria em meio a tanta pobreza que havia em sua casa. Com o tempo foi crescendo e seu corpo ganhando contorno. Tirava boas notas na escola, seu sonho era ser médica. Num dos diversos desabamentos devido a enchentes que ocorrem nas periferias, seu tio foi morar com sua família. Era irmão de seu pai, sua casa havia desabado. Homem falador e simpático, logo conquistou a menina. Dizia ser sua sobrinha predileta. O pai e a mãe da menina por trabalharem no departamento de limpeza de uma empresa, saiam cedo de casa. Antes deixavam a menina na escola. Acontece que um dia, por estarem atrasados não levaram a menina, ficando na responsabilidade do tio. A noite quando chegaram, notaram que a menina tão alegre, mudou. Seus olhos não brilhavam mais, a pequena Matamba não levantava mais poeira. Com o tempo parecia que uma nuvem escura se apossou do corpo da menina, com reflexo nas notas da escola. 

– O que você tem menina?

– Nada não mãe. 

Deve ser coisa de adolescente! E assim foram passando os dias, assim o monstro foi ganhando forma. As pretas velhas também notaram a mudança de comportamento da menina. Outrora correndo pelas ladeiras, hoje não levanta mais poeira. Achavam estranho a mudança desde que o tio foi morar com a família. Com a autoridade que a ancestralidade e a velhice impunham, foram conversar com a menina. A menina com lágrimas nos olhos, ficou em silêncio. O silêncio calou fundo nas velhas, acostumadas com as tragédias que acontecem com as mulheres e crianças ao longo dos anos. Foram falar com a família e esta dizendo que era coisa de adolescente, logo passaria. Para não se preocuparem. Foi num dia chuvoso que a menina desapareceu de casa e seu corpo foi encontrado a alguns quilômetros, num bairro vizinho. Foi arrastada pela correnteza do rio que margeava sua casa. Em sua autópsia foi constatada que estava grávida, além de sinais de enforcamento. O tio que tanto gostava da menina, desapareceu! Não compareceu ao enterro. Sua mãe e seu pai se desesperaram ao ver sua filha descer à vala comum da violência. Uma menina que transformou-se em mais uma estatística. Vítima de uma violência que pode estar acontecendo nesse exato momento. Uma violência silenciosa que faz sangrar crianças sobre uma cama, num quarto escuro. Um quarto que pode estar ao lado e que no final, pode não ser coisa de adolescente. 

Luis Mendes é autor do livro Conversa de Encruzilhada disponível através do link https://desconcertoseditora.com.br/produto/conversa-de-encruzilhada-luis-mendes/

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